quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Egas Moniz (Uma Biografia) - João Lobo Antunes

Queria fazer uma pausa na ficção. Tinha vontade de ler um ensaio ou algo do género. Porque não uma biografia?

Egas Moniz foi o primeiro, e durante muito tempo o único, português a receber um prémio Nobel. Este deveria ser  por si só um motivo de orgulho para os portugueses, porém Egas sempre gerou muita controvérsia e a alma lusa tende, não poucas vezes, a desvalorizar os seus. Bem sei que nada é consensual, mas mesmo nos dias de hoje, não basta a Cristiano Ronaldo ser reconhecido pela FIFA como o melhor do mundo, para que todos os portugueses lhe tenham "respeito". No caso de Egas,  curiosamente ou talvez não, são precisamente os seus pares da medicina os seus maiores críticos. Claro que não se pode generalizar, mas quer no seu tempo quer nos anos que se seguiram, muitas foram as vozes que se levantaram para criticar o seu trabalho.
 Mesmo hoje, passados tantos anos, as opiniões são divergentes.

Estes foram os motivos principais que me levaram a escolher esta obra, mas houve ainda um outro ingrediente que ajudou a aguçar o apetite. O autor João Lobo Antunes. Quem melhor para escrever a biografia de um médico que um outro médico? E se esse outro médico se dedicar precisamente à mesma especialidade? Não há dúvida que João Lobo Antunes era a pessoa indicada para me dar a conhecer o trabalho e obra de Egas Moniz e o devido enquadramento nos dias de hoje.

Esta biografia é, segundo o autor, uma biografia, deixando talvez antever que poderá num ponto ou noutro ter o seu cunho pessoal na interpretação dos factos. Mas há que dizer que todo este trabalho é bastante documentado com inúmeras referências a outras obras e correspondência pessoal de Egas Moniz.

Não quero aqui falar extensivamente de Egas Moniz, para isso sugiro a leitura do livro, mas ainda assim há alguns pontos que interessa dizer. Nasceu em Avanca no ano de 1874, filho de gente humilde com ligações à terra. Graças ao seu tio/padrinho, abade de Pardilhó, teve a possibilidade de estudar e obter a licenciatura em medicina na Universidade de Coimbra. Mais tarde é transferido para Lisboa onde foi docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
É em Lisboa que faz a sua incursão pela política e se torna investigador. Foi uma figura notável em tudo o que se envolve, mas é na investigação mais se distingue. Contando sempre com a preciosa ajuda do seu auxiliar Pedro Almeida Lima, foi o pai das técnicas de angiografia cerebral e leucotomia pré-frontal. O seu auge é atingido com o reconhecimento do seu trabalho pela academia sueca com a atribuição do Prémio Nobel da Medicina em 1949.

Gostei bastante de conhecer o percurso deste personagem, a quem poderei chamar um visionário do seu tempo. Digo isto não apenas pelo que conquistou ou descobriu, mas também pela sua metodologia de trabalho. Logo durante a sua licenciatura, mostrou audácia ao escolher fazer as suas teses sobre sexologia. Como docente foi o primeiro professor a introduzir Freud nas aulas de medicina, facto que não é irrelevante quando devidamente enquadrado na sua época. Cedo percebeu a importância de publicar em revistas estrangeiras de renome os resultados das suas experiências, bem como de viajar frequentemente para divulgar pessoalmente o seu trabalho e perceber o que se fazia fora de portas. E mais haveria por dizer...

A forma como o autor nos expõe este trabalho não é unicamente cronológica, conforme a maioria das biografias. Neste caso a cronologia é associada à temática abordada, sendo possível avançar e recuar no tempo durante a obra. Não sendo uma forma usual, não deixa de não ser uma escolha inteligente se considerarmos os vários aspectos de uma vida muito rica e diversificada.

Não se recomenda a leitura de uma biografia como se faz com um romance, pois neste caso é sempre necessária uma predisposição do leitor para conhecer o biografado. Mas se de alguma forma se interessar por este tema, tomo a liberdade de lhe recomendar esta obra coma certeza que se irá divertir e, porque não, divertir.

Págs. 375
Ref. ISBN: 978-989-616-398-3

Editora: Gradiva

2 comentários:

miGuel pesTana disse...

O género (auto)biográfico tem sido deixado para trás nas minhas leituras, infelizmente. Mas por acaso estou a ler uma biografia.
Como dizes, é preciso o leitor ter uma empatia pelo biografado, caso contrário, penso que a leitura será um mártir!

Mas por acaso tenho curiosidade em conhecer um pouco mais Egas Moniz, pois sei tão pouco acerca dele.

Boas leituras
Abraço

Marco Caetano disse...

Miguel,

Já vi que estás a ler sobre Nelson Mandela. Uma outra pessoa apaixonante, não tenho dúvida!
Tenho um pequeno livro sobre o Mandiba cá em casa. Tenho de lhe pegar qualquer dia. Não agora, já estou de regresso ao romance.

Boas letras...
Marco