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sábado, 5 de setembro de 2026

Gente Pobre - Fiódor Dostoiévski

Depois de Noites Brancas, que me deixou particularmente bem impressionado, quis continuar a descobrir Dostoiévski através das suas primeiras obras. Gente Pobre, o seu romance de estreia, pareceu-me uma escolha natural.

Gostei do livro. Não gostei tanto como de Noites Brancas, mas encontrei aqui algo que me parece muito importante para compreender Dostoiévski: o seu olhar profundamente humano sobre aqueles que vivem à margem, sobre a pobreza e, sobretudo, sobre a forma como a falta de dinheiro condiciona a dignidade e as relações entre as pessoas.

Gente Pobre é construído essencialmente através da troca de cartas entre Makar Alexeyevich, um modesto funcionário público, e Varvara Alexeyevna, uma jovem igualmente pobre e marcada pelas dificuldades da vida. É através dessas cartas que vamos conhecendo os seus dias, as suas preocupações, os pequenos acontecimentos que ganham uma dimensão enorme quando se vive com tão pouco e, sobretudo, a relação de proximidade e afeto que se estabelece entre os dois.

O formato epistolar funciona particularmente bem porque nos aproxima das personagens. Não estamos perante uma descrição distante da pobreza. São as próprias personagens que nos contam aquilo que vivem, aquilo que sentem e aquilo que lhes falta. Desta forma, a pobreza deixa de ser um conceito e passa a ter rosto, voz e sentimentos.

Foi precisamente esse lado humano que mais gostei de encontrar no livro. Dostoiévski não reduz estas personagens à sua condição económica. São pessoas com orgulho, sonhos, vaidades, inseguranças, desejos e necessidade de serem reconhecidas. E talvez seja essa uma das ideias mais fortes do romance: ser pobre não significa deixar de querer, de sonhar ou de procurar alguma dignidade.

Há também uma atenção especial aos pequenos gestos. Uma peça de roupa, um livro, uma visita, uma palavra de consideração ou simplesmente a preocupação com o outro podem adquirir uma importância enorme quando a vida é feita de privações. Dostoiévski mostra-nos como, em determinadas circunstâncias, aquilo que para uns é insignificante pode representar tudo para outros.

Mas Gente Pobre é também um livro sobre a dignidade. Sobre o orgulho de quem pouco tem e, precisamente por isso, sente ainda mais necessidade de preservar aquilo que lhe resta. Makar, em particular, é uma personagem que vive constantemente entre a humildade e o desejo de não ser humilhado.

Ainda assim, comparando as duas leituras, Noites Brancas continua a ser a minha preferida. Talvez pela delicadeza, pela atmosfera e pela forma como, em tão poucas páginas, Dostoiévski consegue criar uma história que permanece.

Gente Pobre é mais irregular e menos imediato, mas permite perceber desde muito cedo a preocupação do autor com aqueles que normalmente permanecem invisíveis.

Uma leitura de que gostei, sobretudo pelo seu lado humano e pela forma como nos faz olhar para a pobreza não apenas como falta de recursos, mas como uma realidade que toca a dignidade, os afetos e a própria forma como nos vemos. Mais do que um romance sobre a pobreza, Gente Pobre é um romance sobre pessoas que lutam para preservar a sua humanidade quando tudo à sua volta parece condená-las à invisibilidade.

Págs. 192
Ref. ISBN: 978-989-570-58-70

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Noites Brancas - Fiódor Dostoiévski

Há momentos em que sentimos necessidade de regressar aos clássicos. Não necessariamente porque nos faltam livros por ler, mas porque há escritores aos quais sabemos que vale a pena voltar. Depois de já ter lido Crime e Castigo e O Jogador, chegou a vez de regressar a Dostoiévski, um porto seguro, através de Noites Brancas.

E que boa escolha.

Noites Brancas é um daqueles livros que se lê depressa, mas que fica connosco muito depois de o terminarmos. É, de certa forma, um shot de leitura de qualidade: curto, intenso e capaz de nos oferecer, em poucas páginas, uma experiência literária que muitos romances muito mais longos não conseguem proporcionar.

A história é simples. Um homem solitário, habituado a viver mais no mundo dos seus pensamentos e dos seus sonhos do que na realidade, conhece Nástienka durante uma das suas caminhadas noturnas. Ao longo de quatro noites, os dois aproximam-se, partilham histórias, expectativas e fragilidades, e criam uma intimidade inesperada. Mas aquilo que começa por parecer uma história de encontro rapidamente se transforma numa história sobre a solidão, a paixão e o abandono.

É precisamente nessa simplicidade que Dostoiévski revela a sua força. Não precisa de uma trama complexa para explorar aquilo que realmente lhe interessa: as pessoas, os seus desejos, as suas ilusões e, sobretudo, a distância entre aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos permite viver.

O narrador é particularmente interessante. É um homem, de quem acabamos por nunca saber o nome, que parece ter construído uma vida inteira dentro da própria imaginação. Sonha, observa, idealiza. Talvez por isso o encontro com Nástienka adquira uma importância tão grande: pela primeira vez, aquilo que antes existia apenas na sua imaginação parece ganhar forma diante dos seus olhos.

E é impossível não reconhecer a beleza da escrita. Logo nas primeiras páginas encontramos uma passagem que me ficou na memória:

“O céu estava tão estrelado, tão luminoso, que, ao olhá-lo, não podíamos deixar de nos perguntar se seria possível que vivessem pessoas mal-humoradas e caprichosas debaixo dele.”

Há qualquer coisa de profundamente belo nesta frase. É também muito característico de Dostoiévski: a capacidade de partir de uma imagem aparentemente simples para revelar o estado de espírito de quem a observa.

Apesar de ser uma história de amor, Noites Brancas é, para mim, sobretudo um livro sobre a solidão. Sobre a necessidade que temos de ser vistos, ouvidos e, ainda que por breves instantes, compreendidos por alguém. É também sobre a facilidade com que podemos confundir aquilo que desejamos com aquilo que realmente existe. Tudo temas perfeitamente atuais.

Talvez seja por isso que, apesar da sua dimensão reduzida, o livro consiga deixar uma impressão tão forte. Dostoiévski não precisa de muitas páginas para criar personagens que parecem carregar uma vida inteira dentro delas.

Gostei muito desta leitura. É um livro delicado, melancólico e profundamente humano. Um daqueles clássicos que nos recordam que a boa literatura não precisa de ser extensa para ser grande.

Em suma, Noites Brancas é uma pequena história sobre grandes sentimentos: a solidão de quem sonha, a esperança de quem se apaixona e a dor inevitável de quem percebe que nem sempre o amor é suficiente para impedir o abandono.

Um verdadeiro shot de leitura de qualidade: breve, intenso e com um sabor que permanece muito depois da última página.

Págs. 96
Ref. ISBN: 978-989-570-66-48
Editora: Alma dos Livros

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

Crime e Castigo pode não ser o melhor livro de sempre, mas é incontornável que se trata de uma obra de referência e por isso mesmo de leitura obrigatória.

Raskólnikov é um jovem que, para dar seguimento à sua vida académica, foi viver para São Petersburgo. Órfão de pai, é com a ajuda da mãe e da irmã que vai subsistindo. Apesar disso, a sua vida não é fácil. O mau humor aliado ao mau temperamento passam a ser uma constante, aliando ainda a sua falta de disponibilidade para fazer amigos, o resultado é o abandono dos estudos.

Dedica-se então a deambular pelas ruas, a pensar na vida e nos grandes ícones da história (como por exemplo Napoleão),  revoltando-se com o mundo que o rodeia. "Os fins justificam os meios" é algo que parece dominar-lhe as ideias. Muitos são os dilemas com que a sua mente se debate, muitas as dores de cabeça e a consequência é o desleixo na sua imagem parecendo um mendigo. Em boa verdade apenas fala com Nastássia e Razumíkhin, uma criada do prédio que habita e um ex-colega de faculdade.

Estas pequenas linhas, naturalmente não chegam para o descrever, porque é uma personagem muito mais complexa capaz de pensar o mal, mas também, quando menos se espera, capaz de ser solidário ao ponto de entregar todo o seu dinheiro a uma desconhecida em apuros, achando-se com capacidade para organizar o mundo à sua maneira.

Conforme o titulo do livro propõe, haverá um crime ao qual Raskólnikov está associado. A morte de uma velha agiota e de sua irmã, vitimas de assassinato, é o colocar em prática desse plano pensado ao mais pequeno pormenor até ao momento de o pôr em prática. Mas a vida é cheia de surpresas e nem tudo aconteceu conforme planeado. Raskólnikov, sente-se fraco, delira, recupera, torna a delirar. Começou o castigo.

A qualidade da descrição de uma personagem que já tinha lido em O Jogador, é aqui ainda muito mais evidente. Dostoiévski tem a capacidade de entrar na mente das suas personagens de uma forma que está alcance de muito poucos. É esse para mim um dos grandes pontos altos da sua escrita.

Com Raskólnikov este trabalho é primoroso. A forma como descreve os momentos em que o seu personagem luta contra os seus dilemas sozinho, quando reencontra a família ou nos interrogatórios de polícia é sublime. Numa palavra: "apaixonante".

Quando voltar ao autor, gostaria de ler O Idiota, por isso se me quiserem oferecer uma prenda...

Por último uma breve,mas justa, referência para a excelente tradução da obra. Acho que está muito bem escrito e por isso mesmo não queria deixar passar em branco.

Termino este post da forma como comecei: Leitura Obrigatória.

Págs. 510
Ref. ISBN: 978-972-23-2722-0
Editora: Editorial Presença

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Jogador - Fiódor Dostoiévski

Por norma interesso-me bastante por entrevistas a escritores e pessoas ligadas à literatura. Numa esmagadora maioria delas verifico que há uma inspiração comum: Fiódor Dostoiévski. Desta forma era questão de tempo até me encontrar com o autor.

O Jogador surge numa fase em que por diversos motivos pretendia ler um livro pequeno. E claro está que não me arrependi.

Aleksei Ivánovitch, o narrador do livro, é uma pessoa astuta, um "smart eye", porém apenas se serve desses atributos para criticar o que rodeia, já que no que a si diz respeito é uma pessoa inconsequente, sem objectivos de vida definidos. Quase que por acidente vê-se apaixonado pelo jogo e é através desta paixão que Dostoiévski alia o humor à ironia para mostrar as vivências de uma família que se vê estranhamente dependente do jogo.

Os meandros dos casinos, as tendências e vícios de jogo são amplamente esmiuçados de modo a mostrar ao leitor de várias perspectivas como tudo se passa. No fundo há uma análise comportamental de quem joga ou de quem depende do jogo muito curiosa. Muitos são os estados de espirito explorados desde o êxtase, passando pela loucura e pela solidão.

Por último uma pequena nota. Também Fiódor Dostoiévski foi durante vários anos viciado no jogo. Talvez por isso a análise seja tão real.

Págs. 163
Ref. ISBN: 978-972-23-2744-2
Editora: Editorial Presença