domingo, 21 de junho de 2026

A vegetariana - Han Kang

Há muito tempo que um livro não me suscitava tanta curiosidade. Não descansei enquanto não o comprei e, depois de o ter em casa, não consegui resistir. A ideia de alguém que tem uma vida normal, do mais normal que pode haver, e que, de um momento para o outro, por causa de um sonho, se torna vegetariana convicta, foi suficiente para me atrair. Esta é a história de Yeong-hye.

A Vegetariana é uma narrativa temporalmente tripartida, contada por diferentes narradores, em que o senhor Cheong, marido de Yeong-hye, é o primeiro. A forma como descreve o quão normal era a sua vida, a sua mulher ou o seu casamento é extraordinária. Nunca tinha lido nada de Han Kang, mas foi precisamente esta voz narrativa que me prendeu desde o início. Não resisto a partilhar este excerto em que o senhor Cheong descreve a mulher quando a conheceu e que ilustra bem o tom desta primeira parte:

“Quando se aproximou da mesa a que eu já estava sentado, não consegui deixar de reparar nos sapatos que trazia — os sapatos pretos mais vulgares que se possa imaginar. E aquele andar — nem apressado nem vagaroso, nem firme nem afetado.

No entanto, embora não tivesse nada de muito atraente, nada tinha também de repulsivo e, por isso, não havia motivo para que não nos casássemos. A personalidade passiva dessa mulher em quem eu não conseguia detetar frescura, nem encanto, nem nada de particularmente refinado, servia-me na perfeição.”

O que começa por parecer uma simples decisão alimentar revela-se rapidamente algo muito mais profundo. O vegetarianismo de Yeong-hye não é apresentado como uma escolha ética ou ideológica, mas como uma rutura. Uma recusa. Um gesto que desafia não apenas os hábitos da família, mas também as expectativas sociais e os papéis que lhe foram atribuídos. Numa sociedade sul-coreana patriarcal e ultra-normativa, a sua escolha é recebida como uma verdadeira heresia, um ato de rebeldia incompreensível que desestabiliza a família inteira.

À medida que a narrativa avança, torna-se evidente que este não é um livro sobre vegetarianismo. É um livro sobre controlo, sobre violência (muitas vezes silenciosa) e sobre aquilo que acontece quando alguém decide deixar de corresponder ao que os outros esperam de si. É também neste aspecto que me rendi a Han Kang, a forma como explora estas questões com uma escrita contida, quase fria, o que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores.

Uma das decisões mais interessantes da autora é a de nunca entregar verdadeiramente a voz a Yeong-hye. Conhecemo-la sempre através do olhar dos outros: o olhar do indignado marido, da mente artística (e perturbada) do cunhado, e da dor exausta da irmã. Essa ausência cria um efeito curioso. A protagonista está no centro de tudo e, ao mesmo tempo, permanece inacessível, como um mistério que ninguém consegue compreender completamente.

Há livros que conquistam pela história e outros pelas personagens. A Vegetariana destaca-se sobretudo pela inquietação com que nos deixa. É um daqueles romances que, mesmo quando fechamos o livro, continuam a crescer na nossa cabeça. Algumas cenas são difíceis de esquecer, não pela violência explícita, mas pela estranheza e pelo desconforto que provocam.

Mais do que as questões que o livro parece abordar à superfície, foram aquelas que me suscitou depois da leitura que mais me acompanharam. Entre elas, a forma como a sociedade reage a quem deixa de corresponder às expectativas do que consideramos normal e os limites da intervenção sobre a vontade de alguém. Em vários momentos dei por mim a pensar em temas como a autonomia individual, a institucionalização da diferença e até certas formas de violência psiquiátrica que continuam a suscitar debate. Não porque o romance procure discutir diretamente essas questões, mas porque as convoca de forma subtil e inquietante.

Em suma, A Vegetariana foi uma das leituras mais surpreendentes dos últimos tempos. Entrou na minha lista pela originalidade da premissa, mas ficou pela forma como Han Kang transforma uma decisão aparentemente simples numa reflexão inquietante sobre identidade, liberdade e resistência. Não é um livro confortável. E é precisamente por isso que vale a pena lê-lo. Se procuram algo original, desconcertante e que vos prenda da primeira à última página, A Vegetariana tem de entrar para a vossa lista de leituras obrigatórias.

Págs. 190
Ref. ISBN: 978-972-20-6107-0
Editora: Publicações Dom Quixote

domingo, 7 de junho de 2026

1Q84 - Parte 1 - Haruki Murakami

Quando decidimos ler Haruki Murakami há desde logo uma garantia. A certeza de que acabámos de adquirir um bilhete para uma viagem inesquecível que não nos deixará indiferente. Há alguns anos tinha lido Kafka à Beira-Mar e After Dark, duas leituras muito diferentes entre si, mas marcantes o suficiente para deixar reservada uma próxima viagem. Se em Kafka à Beira-Mar Murakami me fascinou pela imaginação e em After Dark pela forma como captou a solidão e o mistério da noite, em 1Q84 impressionou-me sobretudo pela forma como transforma a estranheza numa atmosfera permanente.

Publicado em Portugal em três volumes, este primeiro livro apresenta muitas das características que nos permitem reconhecer que estamos num mundo de Murakami: personagens solitárias, uma realidade que começa subtilmente a deslocar-se, referências musicais constantes e uma fronteira cada vez mais difusa entre o quotidiano e o extraordinário. Neste livro, Murakami não tem pressa. Em vez de lançar o leitor diretamente na ação, prefere construir uma atmosfera, acumular pequenos desvios à realidade e instalar uma inquietação subtil que cresce página após página.

A narrativa desenvolve-se em duas frentes. Por um lado, acompanhamos Aomame, uma instrutora de fitness com uma vida aparentemente disciplinada, mas atravessada por uma inquietação difícil de nomear. Por outro, seguimos Tengo, professor de matemática e aspirante a escritor, cuja vida sofre uma alteração inesperada quando Komatsu, editor experiente e pouco ortodoxo, lhe propõe um desafio peculiar: reescrever A Crisálida do Ar, um manuscrito produzido por uma misteriosa jovem de dezassete anos chamada Fuka-Eri para posterior submissão a um prémio literário.

Este não é um romance sobre livros, mas um dos aspetos mais interessantes que tem para oferecer é uma viagem aos bastidores do mundo editorial. Murakami explora questões relacionadas com autoria, criação literária, edição e legitimidade artística, convidando o leitor a refletir sobre o que faz verdadeiramente um escritor.

À medida que a narrativa avança, começam a surgir pequenas fissuras na realidade. Aomame apercebe-se de que determinados acontecimentos parecem não coincidir com as suas memórias. Existem detalhes que não encaixam. Factos que deveriam ser conhecidos assumem contornos diferentes. O mundo continua aparentemente igual, mas algo mudou.

Sem encontrar melhor explicação, Aomame atribui um novo nome a esta realidade alternativa: 1Q84, onde o “Q” (homófono de "kyū", o número 9 em japonês) introduz a dúvida: não é já o mesmo ano, nem o mesmo mundo. A referência a 1984, de George Orwell, é evidente, mas Murakami utiliza-a menos como homenagem direta e mais como ponto de partida para uma reflexão sobre a natureza da realidade, da memória e da perceção.

Tal como sucede noutras obras do autor, o extraordinário não irrompe de forma espetacular. Insinua-se. Instala-se lentamente. O leitor aceita uma pequena estranheza, depois outra, e outra ainda, até se encontrar num lugar onde deixou de saber exatamente quais são as regras do mundo que habita.

A música desempenha também um papel importante neste processo. A Sinfonietta de Leoš Janáček surge repetidamente ao longo da narrativa, funcionando quase como uma porta de entrada para este universo paralelo e contribuindo para a construção de uma atmosfera simultaneamente bela e inquietante.

Se há algo que distingue este primeiro volume é precisamente a sua capacidade de gerar perguntas sem oferecer respostas imediatas. Quem é realmente Fuka-Eri? Que significado tem A Crisálida do Ar? O que aconteceu ao mundo de Aomame? E de que forma as histórias de Aomame e Tengo se cruzam?

Mais do que responder, e sem pressa, Murakami prefere preparar o terreno.

Em suma, este primeiro volume de 1Q84 é menos um romance completo e mais o início de uma experiência. Há momentos em que a narrativa parece avançar devagar demais, mas é difícil não admirar a forma como Murakami constrói o mistério e a estranheza. Terminada esta primeira parte, fica sobretudo uma sensação: a de que entrámos num lugar de onde ainda não compreendemos totalmente as regras, mas do qual queremos continuar a fazer parte.


Nota adicional: Se 1984 de George Orwell já era um livro à espera de ser lido, após ler este primeiro volume de 1Q84, a urgência aumentou significativamente e será, muito provavelmente, uma das minhas próximas leituras.

 
Págs. 487
Ref. ISBN: 978-972-46-2053-4
Editora: Casa das Letras