Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

A Imperatriz Orquídea - Anchee Min

Acho que nunca leria este livro por minha iniciativa, no entanto, duas mulheres muito importantes na minha vida já o tinham lido e conseguiram fazer o marketing suficiente para me convencer a ler.

Não posso considerar esta uma obra excepcional da literatura, mas também não era disso que eu estava à espera. Trata-se de um romance escrito de forma bastante interessante onde é narrada uma história sobre uma cultura completamente à parte da nossa.

Tudo se passa na China, em meados do séc. XIX. A jovem Orquídea é oriunda de uma família de classe média. Mas nesta China, isto não significa viver desafogadamente.  Ser filha do governador de Wuhu não é suficiente para viver com luxo. Talvez, ter uma boa educação e um lar digno tenham sido os únicos luxos de que dispôs.

O livro começa com a morte do pai de Orquídea e o difícil caminho que ela teve de trilhar, juntamente com a sua família e a urna de seu pai, até Pequim para fazer o seu enterro. É em Pequim que Orquídea toma conhecimento que Hsien Feng, o imperador, se vai casar. Orquídea decide candidatar-se e consegue ser uma das seleccionadas, após um processo de bastante interessante. Vai então viver para a Cidade Proibida, um local diferente de tudo o resto. A Cidade Proibida era uma espaço dentro de Pequim mas onde apenas acedia quem o imperador queria.  Era aqui que o imperador vivia rodeado de concubinas e eunucos. Concubinas eram mulheres criteriosamente seleccionadas para servir o imperador e os eunucos eram jovens empregados do imperador, que eram castrados para não se envolverem com as concubinas.
Nesta história gostei bastante do papel de An-te-hai, o eunuco escolhido por Orquídea para ser o seu eunuco principal, e que tanto a iria ajudar.

Orquídea é a única mulher que consegue dar um filho homem ao imperador. Antes disso uma outra concubina dera à luz uma menina, mas este foi um acontecimento que tinha pouca relevância nos padrões da altura para um imperador. Francamente pouco para quem dispunha de tantas mulheres. Mas Hsien Feng era de facto uma pessoa frágil e foi com pouca surpresa que acabou por morrer quando o seu filho Tung Chih tinha apenas seis anos. Assim chegou Orquídea Yehonala a imperatriz.

Tudo o resto são guerras pelo poder e uma bela história de amor. No final ficamos com o sabor de um belo romance histórico e um pouco mais de conhecimento sobre uma cultura, no mínimo, interessante. Gostava que tivesse sido um pouco mais explorada a História em alguns aspectos da Guerra do Ópio. Mas esse não é um argumento suficiente para não se ler este livro.

Apesar de não ter conseguido confirmar junto da editora, penso que esta obra já não está em catálogo. Se assim for, penso que merece uma reedição.

Págs. 361
Ref. ISBN: 972-695-621-8

Editora: Teorema

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Egas Moniz (Uma Biografia) - João Lobo Antunes

Queria fazer uma pausa na ficção. Tinha vontade de ler um ensaio ou algo do género. Porque não uma biografia?

Egas Moniz foi o primeiro, e durante muito tempo o único, português a receber um prémio Nobel. Este deveria ser  por si só um motivo de orgulho para os portugueses, porém Egas sempre gerou muita controvérsia e a alma lusa tende, não poucas vezes, a desvalorizar os seus. Bem sei que nada é consensual, mas mesmo nos dias de hoje, não basta a Cristiano Ronaldo ser reconhecido pela FIFA como o melhor do mundo, para que todos os portugueses lhe tenham "respeito". No caso de Egas,  curiosamente ou talvez não, são precisamente os seus pares da medicina os seus maiores críticos. Claro que não se pode generalizar, mas quer no seu tempo quer nos anos que se seguiram, muitas foram as vozes que se levantaram para criticar o seu trabalho.
 Mesmo hoje, passados tantos anos, as opiniões são divergentes.

Estes foram os motivos principais que me levaram a escolher esta obra, mas houve ainda um outro ingrediente que ajudou a aguçar o apetite. O autor João Lobo Antunes. Quem melhor para escrever a biografia de um médico que um outro médico? E se esse outro médico se dedicar precisamente à mesma especialidade? Não há dúvida que João Lobo Antunes era a pessoa indicada para me dar a conhecer o trabalho e obra de Egas Moniz e o devido enquadramento nos dias de hoje.

Esta biografia é, segundo o autor, uma biografia, deixando talvez antever que poderá num ponto ou noutro ter o seu cunho pessoal na interpretação dos factos. Mas há que dizer que todo este trabalho é bastante documentado com inúmeras referências a outras obras e correspondência pessoal de Egas Moniz.

Não quero aqui falar extensivamente de Egas Moniz, para isso sugiro a leitura do livro, mas ainda assim há alguns pontos que interessa dizer. Nasceu em Avanca no ano de 1874, filho de gente humilde com ligações à terra. Graças ao seu tio/padrinho, abade de Pardilhó, teve a possibilidade de estudar e obter a licenciatura em medicina na Universidade de Coimbra. Mais tarde é transferido para Lisboa onde foi docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
É em Lisboa que faz a sua incursão pela política e se torna investigador. Foi uma figura notável em tudo o que se envolve, mas é na investigação mais se distingue. Contando sempre com a preciosa ajuda do seu auxiliar Pedro Almeida Lima, foi o pai das técnicas de angiografia cerebral e leucotomia pré-frontal. O seu auge é atingido com o reconhecimento do seu trabalho pela academia sueca com a atribuição do Prémio Nobel da Medicina em 1949.

Gostei bastante de conhecer o percurso deste personagem, a quem poderei chamar um visionário do seu tempo. Digo isto não apenas pelo que conquistou ou descobriu, mas também pela sua metodologia de trabalho. Logo durante a sua licenciatura, mostrou audácia ao escolher fazer as suas teses sobre sexologia. Como docente foi o primeiro professor a introduzir Freud nas aulas de medicina, facto que não é irrelevante quando devidamente enquadrado na sua época. Cedo percebeu a importância de publicar em revistas estrangeiras de renome os resultados das suas experiências, bem como de viajar frequentemente para divulgar pessoalmente o seu trabalho e perceber o que se fazia fora de portas. E mais haveria por dizer...

A forma como o autor nos expõe este trabalho não é unicamente cronológica, conforme a maioria das biografias. Neste caso a cronologia é associada à temática abordada, sendo possível avançar e recuar no tempo durante a obra. Não sendo uma forma usual, não deixa de não ser uma escolha inteligente se considerarmos os vários aspectos de uma vida muito rica e diversificada.

Não se recomenda a leitura de uma biografia como se faz com um romance, pois neste caso é sempre necessária uma predisposição do leitor para conhecer o biografado. Mas se de alguma forma se interessar por este tema, tomo a liberdade de lhe recomendar esta obra coma certeza que se irá divertir e, porque não, divertir.

Págs. 375
Ref. ISBN: 978-989-616-398-3

Editora: Gradiva

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Ukuhamba (Manhã de África) - Miguel Sousa Tavares

Ukuhamba significa viagem em linguagem Zulu. É isso mesmo que nos proporciona Miguel Sousa Tavares com esta obra, uma viagem sobre alguns pontos do continente africano. Uma breve viagem, conforme sugere o subtítulo Manhã de África.

Ukuhamba é uma viagem que não tem início nem fim. Também não tem um roteiro definido. O segredo é percorrer as imagens de Martim Sousa Tavares e deixarmo-nos conduzir pelo absorvente texto de seu pai.
Como disse o roteiro não está definido, mas esta viagem promete passar em lugares como África do Sul, Zimbabwe ou Bostwana. Uma viagem que teve um papel importante na vida do autor pois acontece a seguir ao recobro de uma doença. O que melhor do que viajar com um filho numa altura destas?

Gostei especialmente da passagem pelas Cataratas Vitória e da obrigatória alusão à aventura de Stanley e Livingstone, provavelmente por ter lido há algum tempo atrás uma obra sobre estes senhores (ver AQUI). 
Uma abordagem curiosa é feita sobre a caça ao elefante. De facto, por vezes criamos opiniões sobre assuntos dos quais pouco ou nada sabemos, apenas fundamentados naquilo que ouvimos dizer. É a nossa condição humana!

Estão ainda prometidas zebras, leões, antílopes e leopardos. Prometido está também o despertar da vontade de fazer uma viagem como esta, para todos os que ainda não têm. Poderá este ser o incentivo que faltava?

Págs. 127
Ref. ISBN: 978-989-555-553-6

Editora: Oficina do Livro

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Dama de Espadas - Mário Zambujal

Filipe é um jovem adolescente, morador do bairro da Graça, que um dia se torna amigo de Rodolfo Lucas. Um vizinho com quem, apesar da diferença de idades, cria enorme cumplicidade ao ponto deste o convidar para fazer companhia à sua filha Rosália que, segundo o próprio pai, é um pouco parada para a idade.

No seu estilo muito próprio, Mário Zambujal descreve com muita piada os encontros entre ambos. Gostei em especial da cena do piano que se passa no dia em que conseguem ir para o sótão da casa. Apesar dos bons momentos que Filipe vai passando com Rosália, é com a irmã dela (Eva Teresa), que se diverte verdadeiramente. É com ela que gosta de brincar.

Um dia, a família Lucas vê-se obrigada a viajar para o Brasil  fixar residência em Belo Horizonte. Os anos vão passando e Filipe é agora um repórter do jornal "O Exacto". Nunca esqueceu a menina Eva Teresa que entretanto já é mulher! Foi acompanhando o seu crescimento através de uma tia que continua a viver em Portugal e de tempos a tempos recebe fotografias do Brasil. É atrás desse amor que acaba por ir ao Brasil na esperança de resgatar Eva Teresa para si. Não imaginava que a ia encontrar já casada, provocando assim um regresso mais rápido do que seria de esperar.
Passados alguns anos Eva Teresa regressa a Portugal para o casamento de Rosália que decidiu casar em Portugal. Filipe vai reaproximar-se de novo. O resto fica para o leitor desvendar e acredito que irá surpreender.

Não conheço pessoalmente Mário Zambujal, embora tenha a certeza que seria um prazer conhecê-lo. Mas a boa onda que paira sobre si e a sua boa disposição não enganam. Se dúvidas houver, recomendo a leitura desta Dama de Espadas (Crónica de Loucos Amantes) onde ele mostra como facilmente consegue transpor a sua áurea para a sua escrita. Não sendo um marco da literatura, nem tão pouco sendo esse o seu propósito, é sem dúvida um livro que prende o leitor até ao fim.

Na capa do livro pode encontrar-se uma boa frase sobre esta obra:
"As paixões arrebatadas são como o vinho das melhores castas: primeiro alegram, depois embriagam, um dia azedam."

Págs. 220
Ref. ISBN: 978-989-8452-04-7
Editora: Clube do Autor

Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald

Não é preciso ser um amante de literatura para já se ter ouvido falar em S. Scott Fitzgerald ou em "O grande Gatsby". Assim, acaba por ser de uma forma natural que mais cedo ou mais tarde esta obra nos vem parar às mãos.
Antes de iniciar a leitura, não fazia a mais pequena ideia do significado de Gatsby, nem tão pouco de que se tratava do nome de uma pessoa, mas havia algo que me dizia que iria gostar.

A acção passa-se em Nova Iorque e Long Island durante os anos 20. Uma época marcada pelos excessos onde muitos correm atrás do sonho americano e Gatsby não é uma excepção. Os valores da sociedade, nos diversos extractos sociais, são amplamente focados, fundamentalmente no final do livro, mas sobre isso não irei falar.
Gatsby é senhor de uma enorme fortuna, cuja origem é duvidosa,  e de uma faustosa mansão junto a uma baía onde diariamente organiza festas para quem quer aparecer. Estas festas são também elas pautadas por excessos de todos os tipos incluindo whisky e champagne, numa altura em que impera a lei seca. O objectivo é muito simples: atrair até si Daisy!
Daisy é um amor de outrora, cujo a vida obrigou a separar, mas que ainda assim nunca acabou. Daisy entretanto casou e vive exactamente (e não por acaso) do outro lado da baía, numa bela mansão facilmente identificada por uma luz verde. Gatsby sabe disso mesmo, mas não quer ir ter com Daisy, antes esperando que esta siga as luzes das sus festas e lhe apareça em casa. A luz verde que avista simboliza a esperança de que tal possa suceder.

Não irão ser estas festas que irão promover o reencontro entre ambos, mas sim Nick Carraway, o narrador deste livro, que é o vizinho do lado de Gatsby. Nick aprende a gostar e a compreender Gatsby como poucos tinham conseguido até então. O resto fica para quem ler a história.

Conforme já deixei antever, gostei da simplicidade e objectividade da obra. É uma história que poderia passar-se em qualquer parte do globo, apesar do contexto em que está inserida. Gatsby é uma personagem por quem facilmente nos apaixonamos. O vazio com que assiste às exuberantes festas que proporciona ou a ansiedade que  demonstrada quando antevê o reencontro com Daisy são bons exemplos da intensidade da escrita de Fitzgerald. É portanto, leitura recomendada!

Por último, gostaria de me pronunciar sobre a edição que li. Tratou-se da primeira obra do "Clube do Autor" que tive oportunidade de ler. Por isso mesmo não podia deixar de congratular a editora pois reúne tudo aquilo que considero essencial numa publicação. O prefácio e a introdução não revelam o fim do enredo e parecem aguçar ainda mais a vontade de ler a obra. A qualidade do papel (ligeiramente amarelado, tal como gosto) e da encadernação tornam o conjunto muito apelativo. A distribuição do texto de forma pouco densificada torna  o resultado final muito agradável. Seria muito interessante ver as restantes obras de Fitzgerald serem também  publicadas pelo Clube do Autor.

Págs. 186
Ref. ISBN: 978-989-84522-2-1

Domingo, 24 de Julho de 2011

D. Amélia - Isabel Stilwell

"D. Amélia" de Isabel Stilwell foi a obra escolhida, este ano, para me acompanhar durante alguns dias de férias. Depois de uma obra densa, como se revelou Berlim Alexander-Platz, procurava uma leitura mais descontraída, mas provida de interesse. Desde que li 1808, de Laurentino Gomes, que não lia um romance histórico e vontade já não faltava!
Tive a oportunidade de visitar o Palácio de Belém, na companhia da autora, aquando do lançamento desta obra, tendo ficado bastante entusiasmado com a história. Assim, não foi difícil escolher a obra que queria ler dentro deste género.

D. Amélia foi a última Rainha de Portugal e constitui, sem dúvida, uma personagem encantadora. Isabel Stilwell traz até nós a história de uma pessoa com qualidades inegáveis, a quem a vida, apesar de ter tornado Rainha, não facilitou nada em muitos momentos.

Filha do Conde Paris, foi em Inglaterra que nasceu devido ao exílio a que pai esteve sujeito. Com seis anos regressou a França, altura em que começa este livro, e  lá viveu feliz a sua adolescência. Sendo a filha mais velha, desde cedo aprendeu o que é viver em monarquia e o dever de servir o povo.
"La grande", conforme era conhecida devido à sua estatura elevada, veio a casar com D. Carlos de Bragança, Duque da Beira e posteriormente El-Rei D. Carlos I de Portugal. Um casamento por amor como sempre sonhara. Os primeiros anos de casamento correram bastante bem. Engravidou por três vezes: Luís Filipe foi o primeiro filho a nascer, seguiu-se Maria Ana que faleceu à nascença e por último viria Manuel. Apesar de continuar a amar o marido, a sua relação foi arrefecendo dadas as inúmeras traições de amor de que foi vitima e também devido ao descontentamento sobre como o Rei regia o país.
O resto da história é sobejamente conhecido, falo do regicídio no Terreiro do Paço. Perdeu o marido e o filho mais velho de uma só vez, num fatídico dia do ano 1908. Seguiu-se a ascensão ao trono do Rei de D. Manuel II que mal teve tempo de aquecer o lugar, já em 5 de Outubro de 1910 se deu a implantação da República. O destino foi mais uma vez o exílio para Inglaterra onde acabaria por morrer, mas não sem antes ver morrer o outro filho.

Bem sei que este tipo de livros são romanceados, mas existência de vários documentos originais ao longo da obra, bem como o fiel encadeamento dos factos atribuem ao livro emoção, tornando-se por vezes viciante.
Gostei de passear entre o Palácio de Belém e o Palácio das Necessidades. Gostei das escapadinhas a Vila Viçosa, a Sintra ou a Cascais. Gostei da obra social desenvolvida pela Rainha. Enfim, gostei desta obra e por isso mesmo recomendo-a aos fãs do romance histórico. Por  isso mesmo posso dizer que irei certamente ler os outros dois romances da autora: Filipa de Lencastre e Catarina de Bragança. Há ainda quem afirme que já se encontra um outro na forja. Qual será a personagem??

Págs. 554
Ref. ISBN: 978-989-626-207-5
Editora: Esfera dos Livros

Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

Berlim Alexander-Platz - Alfred Döblin

Gosto de passar algum tempo na Internet à procura de novidades literárias e de recensões sobre livros de que não possuo grande informação. Foi numa dessas pesquisas que descobri que este "Berlim Alexander-Platz". Constava numa listagem dos 100 livros mais importantes de sempre. Li a sinopse e desde logo despertei interesse pela obra.

Aliado a este interesse poderá estar o facto de nutrir algum interesse na história da Alemanha do século passado. Assim, Berlim Alexander-Platz não revela apenas a história de Franz Biberkopf, mas também toda a conjuntura da grande cidade que já era Berlim no final dos anos 20.

No que respeita a Franz Biberkopf, trata-se de um homem robusto que durante algum tempo foi trabalhador dos cimentos e mais tarde arrumador de mobílias. A vida nem sempre lhe correu bem, cumpriu pena na prisão de Tegel por ter morto uma antiga namorada, da qual fez prostituta, e é precisamente quando abandona este estabelecimento prisional se inicia este livro. Franz pretende reconciliar-se com a vida, ser uma pessoa honesta e até certa altura consegue-o, mas mais uma vez a vida se encarrega de lhe mostrar que não basta querer.

Alfred Döblin tem nesta obra um trabalho notável e disso parece não haver dúvidas. A forma como descreve a cidade, as suas movimentações, os seus meandros, mostram a qualidade do narrador de uma forma que não se limita a ser descritiva. O enquadramento de uma taberna pode ser feito através de diálogos entre duas personagens que podem nada ter a ver com o resto da história. A facilidade com que muda de cenários faz algumas vezes lembrar António Lobo Antunes, transportando-nos de uma cena de assassínio real para o matadouro da cidade.

A condição humana da personagem também é exemplarmente explorada. Os diversos estados de espírito pelos quais a personagem vai passando proporcionam ao leitor momentos de alegria ou de ansiedade tal é a entrega da narrativa.

Ainda assim, devo alertar que a leitura desta obra nem sempre é fácil. Há alturas em que flui de forma normal, mas em contraste, há alturas em que densifica e pareceu-me que estava a patinar. É portanto uma bela obra para quem gosta de ler. Se está a iniciar-se na leitura, a minha sugestão é: escolha outra...

Págs. 592
Ref. ISBN: 978-972-20-4033-4
Editora: Dom Quixote

Terça-feira, 26 de Abril de 2011

Bombaim "A um mundo de distância" - Thrity Umrigar

O título desta obra sugere por si só um choque cultural. Entre Bombaim e o resto do mundo? Eventualmente, mas não só! Fala do choque cultural entre classes sociais, religiões e etnias dos habitantes de Bombaim.

Sera Dubash pertence à classe média/alta da sociedade de Bombaim. Teve um casamento que nunca a satisfez como pessoa, como mulher. O marido não era por assim dizer uma “jóia”. A sogra ajudou a tratar do resto. Os primeiros anos foram bastante conturbados, porém com o tempo as coisas tenderam a serenar.
Em sentido contrário parece caminhar a vida de Bhima. Após um casamento promissor onde reinava a alegria, o amor e a felicidade, vê-se agora a viver num bairro de lata nos arredores da cidade. O seu inicio de vida dava-lhe sinais de que tinham tudo para dar certo, mas um acidente de trabalho do marido foi o princípio do desmoronar de um sonho.

Bhima trabalha em casa de Sera faz muito tempo. A confiança que adquiriu ao longo do tempo permite-lhe ter um tratamento no seio da família Dubash semelhante ao de qualquer outro membro. Semelhante, mas com as devidas diferenças. Sera tem uma filha, Dinaz, casada, feliz, à espera de bebé. Bhima tem na sua neta, Maya, a sua única família. Maya frequenta a universidade com o indispensável apoio de Sera. Também está grávida, mas no seu caso a gravidez não foi desejada!

Bombaim, trata da vida destas duas mulheres (Sera e Bhima). Duas vidas tão diferentes, mas com um denominador bem comum. Thrity Umrigar mostra através deste livro a importância da educação, dos valores, do sofrimento que por vezes está implícito para se conseguir ter uma vida digna.

Bombaim é um livro cheio de oportunidades para reflectir sobre o que somos, o que queremos ser e sobre o que nos deixam ser.


Págs. 308
Ref. ISBN: 978-972-23-4491-3
Editora: Editorial Presença

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Parábolas e Fragmentos - Franz Kafka

Kafka é um dos meus escritores de eleição. Assim, a pouco e pouco é de prever que leia toda a sua obra. Desta vez saiu em sorte este "Parábolas e Fragmentos" que trata disso mesmo: um conjunto de parábolas e no final alguns fragmentos, ou seja algumas pequenas ideias ou pensamentos do autor. Não posso dizer que tenha sido uma escolha feliz. Talvez devesse ter lido este livro mais tarde, após possuir um melhor conhecimento sobre a obra kafkiana. Ou, talvez esta obra não seja bem o meu género.

O poder que Kafka exerce no leitor, obrigando-o a pensar para entender as suas ideias, está aqui bem patente, porém estas parábolas são para mim textos demasiado pequenos, onde confesso que me sinto um pouco perdido por serem tão breves. Os fragmentos, são isso mesmo, fragmentos de pensamentos ou ideias.

No cerne da questão parece estar  o mesmo de sempre. A máquina da vida que atropela tudo e todos sem piedade. De todas as parábolas, destaco uma: "À porta da lei". Foi a que mais gostei. Apesar de curta, deixa transparecer o que me atrai em Kafka. Fala sobre a lei e seus meandros e leva a pensar que se explorada, poderia ter levado o autor a repetir o brilharete feito com "O Processo".

Considero então este um livro que poderá valer a pena ler, mas apenas se o leitor estiver bem preparado para o que o espera. Não foi o meu caso!

Págs. 122
Ref. ISBN: 972-37-0899-X
Editora: Assírio & Alvim

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Nova Iorque - Guia American Express

Seria muito difícil escrever sobre um guia de viagens sem o colocar à prova. Seria muito fácil dizer bem ou mal da escrita, do design ou do conteúdo. Mas seriam apenas impressões e não mais que isso.
Escrevo então sobre este guia, uma vez que após a sua leitura, tive a oportunidade de o pôr à prova na primeira pessoa. Durante sete dias percorri as ruas de Manhattan e com a ajuda deste guia pude desfrutar de tudo o que queria na “cidade que nunca dorme”. Uma cidade deslumbrante em inúmeras vertentes, que toda a gente deveria ter o direito de poder visitar uma vez na vida.
Para os que estiverem a pensar realizar esta viagem ou apenas queiram conhecer um pouco melhor a cidade, sugiro que reservem um pequeno espaço na bagagem para levar este guia. Ao percorrer as ruas de Nova Iorque, rapidamente nos apercebemos que é este o guia mais escolhido pelos turistas de todo o mundo. E há bons motivos para isso!

O guia divide a região por zonas, indicando para cada uma delas os principais pontos de interesse. Faz uma breve descrição de cada um destes pontos e, sempre que se justifica aprofunda o tema de modo a dar um melhor enquadramento sobre variadíssimos aspectos. Para cada região é ainda sugerido um breve passeio pedonal que permite conhecer a sua zona mais significativa.
Estas indicações tornam-se de extrema importância quando estamos a planear o nosso percurso, uma vez que facilita a identificação do que mais nos interessa visitar, oferecendo ainda dicas sobre como lá chegar.
São ainda identificadas as principais atracções fora de Manhattan, também estas acompanhadas por uma breve descrição, que sabe bem reler quando nos encontramos no próprio local.
A secção seguinte deste guia propõe a realização de 7 passeios pedonais, com durações que vão dos 90 minutos a 3 horas, em regiões distintas que ajudam a conhecer de uma forma mais profunda cada uma das zonas propostas.
O capítulo seguinte intitulado “Indicações ao Turista” é talvez o de maior utilidade quando já andamos de um lado para o outro, sendo a sua consulta quase uma constante. As dicas são muitas e variadas: alojamento, restaurantes, cafés e bares, locais para compras, locais de entretenimento ou locais de diversão para crianças.
Outro capítulo não menos importante para o visitante da “The Big Apple” é o Manual de Sobrevivência. Nele podemos encontrar informações sobre: como utilizar correctamente os transportes públicos, como chegar a Manhattan a partir dos aeroportos e ainda informações úteis sobre o dinheiro, segurança, saúde ou como conduzir um carro.
No final existe ainda um mapa subdividido num xadrez com coordenadas, onde facilmente identificamos a localização de algo que procuramos através do índice remissivo.

Imagino que os potenciais leitores deste livro pretendam visitar a cidade. A minha sugestão é que a desfrutem ao máximo!
 
Págs. 448
Ref. ISBN: 978-972-26-1317-0
Editora: Civilização Editora



Os Guias American Express, possuem ainda outra alternativa para os visitantes de Nova Iorque, que poderá funcionar como complemento ao guia anterior ou funcionar como primeira opção.
Refiro-me ao guia "TOP 10 - Nova Iorque". No meu caso utilizei este guia como complemento do anterior dado ser bastante mais pequeno e mais leve, ajudando assim a pesquisa a ser mais expedita.
No entanto, penso que caso esteja a planear uma  viagem tipo "escapadinha" ou bastante temática, este guia poderá ser por si só uma opção a ter em conta. Aqui tudo é apresentado sob a forma de TOP 10.
Poder-se-á talvez considerar que este guia é um pequeno resumo do guia anterior.

Págs. 192
Ref. ISBN: 978-989-550-030-7
Editora: Civilização Editora