sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Noites Brancas - Fiódor Dostoiévski

Há momentos em que sentimos necessidade de regressar aos clássicos. Não necessariamente porque nos faltam livros por ler, mas porque há escritores aos quais sabemos que vale a pena voltar. Depois de já ter lido Crime e Castigo e O Jogador, chegou a vez de regressar a Dostoiévski, um porto seguro, através de Noites Brancas.

E que boa escolha.

Noites Brancas é um daqueles livros que se lê depressa, mas que fica connosco muito depois de o terminarmos. É, de certa forma, um shot de leitura de qualidade: curto, intenso e capaz de nos oferecer, em poucas páginas, uma experiência literária que muitos romances muito mais longos não conseguem proporcionar.

A história é simples. Um homem solitário, habituado a viver mais no mundo dos seus pensamentos e dos seus sonhos do que na realidade, conhece Nástienka durante uma das suas caminhadas noturnas. Ao longo de quatro noites, os dois aproximam-se, partilham histórias, expectativas e fragilidades, e criam uma intimidade inesperada. Mas aquilo que começa por parecer uma história de encontro rapidamente se transforma numa história sobre a solidão, a paixão e o abandono.

É precisamente nessa simplicidade que Dostoiévski revela a sua força. Não precisa de uma trama complexa para explorar aquilo que realmente lhe interessa: as pessoas, os seus desejos, as suas ilusões e, sobretudo, a distância entre aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos permite viver.

O narrador é particularmente interessante. É um homem, de quem acabamos por nunca saber o nome, que parece ter construído uma vida inteira dentro da própria imaginação. Sonha, observa, idealiza. Talvez por isso o encontro com Nástienka adquira uma importância tão grande: pela primeira vez, aquilo que antes existia apenas na sua imaginação parece ganhar forma diante dos seus olhos.

E é impossível não reconhecer a beleza da escrita. Logo nas primeiras páginas encontramos uma passagem que me ficou na memória:

“O céu estava tão estrelado, tão luminoso, que, ao olhá-lo, não podíamos deixar de nos perguntar se seria possível que vivessem pessoas mal-humoradas e caprichosas debaixo dele.”

Há qualquer coisa de profundamente belo nesta frase. É também muito característico de Dostoiévski: a capacidade de partir de uma imagem aparentemente simples para revelar o estado de espírito de quem a observa.

Apesar de ser uma história de amor, Noites Brancas é, para mim, sobretudo um livro sobre a solidão. Sobre a necessidade que temos de ser vistos, ouvidos e, ainda que por breves instantes, compreendidos por alguém. É também sobre a facilidade com que podemos confundir aquilo que desejamos com aquilo que realmente existe. Tudo temas perfeitamente atuais.

Talvez seja por isso que, apesar da sua dimensão reduzida, o livro consiga deixar uma impressão tão forte. Dostoiévski não precisa de muitas páginas para criar personagens que parecem carregar uma vida inteira dentro delas.

Gostei muito desta leitura. É um livro delicado, melancólico e profundamente humano. Um daqueles clássicos que nos recordam que a boa literatura não precisa de ser extensa para ser grande.

Em suma, Noites Brancas é uma pequena história sobre grandes sentimentos: a solidão de quem sonha, a esperança de quem se apaixona e a dor inevitável de quem percebe que nem sempre o amor é suficiente para impedir o abandono.

Um verdadeiro shot de leitura de qualidade: breve, intenso e com um sabor que permanece muito depois da última página.

Págs. 96
Ref. ISBN: 978-989-570-66-48
Editora: Alma dos Livros

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Jenin ao Amanhecer - Susan Abulhawa

Jenin ao Amanhecer, de Susan Abulhawa, chamou-me a atenção logo que chegou às livrarias. Desde o lançamento que fiquei com curiosidade de o ler, talvez porque procurava uma leitura daquele género que tanto me marcou em Khaled Hosseini, de quem li O Menino de Cabul e Mil Sóis Resplandecentes, e em Naguib Mahfouz, de quem li O Cairo Novo. Procurava uma história capaz de me levar para outra realidade, para outra cultura, mas sobretudo uma narrativa onde a história se cruza com a vida das pessoas que a atravessam.

Acertei em cheio. Encontrei tudo isso em Jenin ao Amanhecer. E encontrei, acima de tudo, uma escrita envolvente, capaz de nos prender sem esforço e de nos emocionar de uma forma particularmente poderosa.

O romance acompanha a família Abulheja ao longo de várias décadas, desde a expulsão da sua aldeia palestiniana de Ein Hod e a chegada ao campo de refugiados de Jenin. No centro da narrativa está Amal, que cresce entre a memória de uma terra perdida, as marcas da violência e a esperança de um dia poder regressar. Através dela, a autora transforma uma história coletiva numa história profundamente pessoal.

E talvez seja precisamente essa uma das maiores forças do livro: não nos fala apenas de um conflito, fala-nos das pessoas que têm de aprender a viver dentro dele. Daqueles que perdem a casa, dos que perdem familiares, dos que crescem num lugar que não escolheram e dos que continuam a carregar uma memória que lhes foi transmitida antes mesmo de poderem compreendê-la.

Susan Abulhawa escreve sobre tudo isto sem nunca deixar que a dimensão histórica se sobreponha completamente às personagens. Há dor, muita dor, mas há também amor, amizade, esperança e uma enorme vontade de sobreviver. A autora consegue, sobretudo, dar-nos uma dimensão humana de uma realidade que muitas vezes conhecemos apenas através de números, notícias e imagens.

Há passagens de uma dureza difícil de esquecer. Esta ficou-me particularmente na memória:

“Para as gerações nascidas nos campos de concentração, a dor encontrava repouso num leito de necrofilia. A morte passou a assemelhar-se à vida, a vida à morte, e houve uma altura na sua juventude em que Amal aspirou ao martírio.”

É uma frase brutal, mas também reveladora da forma como Abulhawa escreve, sem procurar suavizar a dor nem afastar o leitor dela. Obriga-nos a olhar para aquilo que significa crescer num ambiente em que a violência deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte da própria existência.

Mas Jenin ao Amanhecer não é apenas um livro sobre perda. É também um livro sobre pertença. Sobre aquilo que significa ter uma terra, uma memória e uma história que continuam a fazer parte de nós, mesmo quando já não podemos regressar a elas.

É nesse contexto que surge uma das passagens de que mais gostei, quando se fala de Jerusalém:

“Ela possui-me, independentemente de quem a conquiste, porque o seu solo é o guardião das minhas raízes, dos ossos dos meus antepassados.”

Talvez seja difícil encontrar melhor forma de explicar a relação entre uma pessoa e o lugar a que chama casa. Não se trata apenas de possuir uma terra, mas de sentir que também somos feitos dela, da sua história, dos seus mortos, das memórias que nos precederam.

Ao longo da leitura, dei por mim a pensar várias vezes em como a literatura consegue fazer aquilo que a informação raramente consegue: aproximar-nos de realidades que nos são distantes. Podemos conhecer datas, acontecimentos e nomes, mas uma história como esta permite-nos perceber, ainda que através da ficção, o que esses acontecimentos significam quando atravessam uma vida, uma família e várias gerações.

Gostei imenso de Jenin ao Amanhecer. Gostei da escrita, da forma envolvente como Susan Abulhawa constrói a narrativa e, sobretudo, da capacidade que demonstra para nos emocionar sem deixar que a emoção retire força à história que quer contar. É um livro duro, por vezes doloroso, mas também profundamente humano.

Em suma, Jenin ao Amanhecer é daqueles livros que não terminam verdadeiramente quando fechamos a última página. Ficam as personagens, ficam as perdas, ficam as perguntas e, sobretudo, fica a sensação de termos conhecido um pouco melhor uma realidade que tantas vezes nos chega apenas através das notícias.

É uma leitura que dói, mas que vale a pena fazer. Porque há histórias que não nos deixam indiferentes e esta é, sem dúvida, uma delas.


Págs. 392
Ref. ISBN: 978-989-58-9418-5

domingo, 2 de agosto de 2026

A casa quieta - Rodrigo Guedes de Carvalho

Há autores aos quais acabamos sempre por regressar. Depois de ler O Pianista de Hotel e Jogos de Raiva, fiquei com vontade de conhecer o Rodrigo Guedes de Carvalho dos primeiros romances. Foi essa curiosidade que me levou até A Casa Quieta. Não procurava necessariamente um livro melhor ou pior; queria perceber de onde vinha uma voz literária que já conhecia e de que tanto tinha gostado.

Essa escolha revelou-se particularmente interessante porque A Casa Quieta permite regressar às origens literárias de Rodrigo Guedes de Carvalho. Já se entrevê aqui uma voz muito própria, embora ainda seja possível reconhecer de forma mais evidente as influências que a moldaram. Há uma influência que dificilmente passa despercebida: António Lobo Antunes. Não me parece justo reduzir Rodrigo Guedes de Carvalho a essa comparação, até porque a sua escrita acabaria por seguir um caminho muito pessoal, mas é impossível não reconhecer, neste romance, ecos do fluxo de consciência, da fragmentação narrativa e da intensidade emocional que caracterizam a obra de Lobo Antunes.

A Casa Quieta é um romance sobre uma família profundamente disfuncional, marcada pela doença, pela guerra e pelas ausências que atravessam gerações. Salvador ocupa o centro da narrativa, mas aquilo que verdadeiramente interessa ao autor não é contar uma história linear. É explorar a memória, as feridas familiares e a forma como o passado continua a moldar o presente, mesmo quando parece já distante.

Um dos aspetos de que mais gostei foi a estrutura dos primeiros capítulos, construídos em cronologia inversa. À medida que recuamos no tempo, não sentimos que estamos apenas a descobrir acontecimentos; temos antes a sensação de que vamos desmontando uma família, retirando camada após camada até percebermos como chegou ao lugar onde a encontramos. A fragmentação narrativa pode ser exigente para alguns leitores, mas é precisamente ela que confere ao romance grande parte da sua força emocional.

Mas é sobretudo na escrita que o romance revela a sua maior força. Rodrigo Guedes de Carvalho escreve de forma intensa, por vezes quase poética, sem nunca perder a capacidade de criar imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. Há frases que parecem suspender a narrativa apenas para fixar uma emoção. Uma delas ficou-me particularmente na memória:

"Não te procurei porque procurar-te me deixaria a exata dimensão da tua ausência…"

É uma frase que, de certa forma, resume o espírito do romance. Em A Casa Quieta, as ausências pesam tanto quanto as presenças. O silêncio diz tanto como as palavras. E aquilo que não é dito acaba frequentemente por ser o que mais nos marca.

Comparado com os romances mais recentes de Rodrigo Guedes de Carvalho, este talvez revele de forma mais evidente as influências literárias que o moldaram. Ainda assim, nunca tive a sensação de estar perante um exercício de imitação. Pelo contrário. Mesmo quando a sombra de António Lobo Antunes se faz sentir, já é possível reconhecer uma voz própria, sensível às fragilidades humanas e particularmente eficaz a transformar emoções em literatura.

Em suma, A Casa Quieta não é um romance para quem procura uma narrativa rápida ou uma sucessão de acontecimentos. Exige disponibilidade, atenção e alguma entrega, sobretudo a aceitação de que nem todas as respostas serão dadas de forma linear. Mas recompensa o leitor com uma escrita intensa e uma exploração profundamente humana da memória, da perda e das relações familiares. Gostei muito da leitura, o que, sendo já admirador da escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho, talvez não constitua uma surpresa. É um daqueles livros que não se lê apenas pela história, mas pela forma como nos faz atravessá-la.

Curiosamente, escolhi este livro para me acompanhar na praia. Tinha feito o mesmo com O Pianista de Hotel e Jogos de Raiva e a experiência tinha corrido muito bem. Desta vez, porém, percebi rapidamente que A Casa Quieta pedia outro cenário. É um romance que exige silêncio, tempo e concentração. A praia pode ser um excelente lugar para muitas leituras; esta, para mim, não foi uma delas. Há livros que nos acompanham para qualquer lado. A Casa Quieta pede-nos apenas que encontremos primeiro um lugar suficientemente tranquilo para o ouvir.

 
Ref. ISBN: 978-972-20-3700-6
Editora: Publicações Dom Quixote
Págs. 263