domingo, 2 de agosto de 2026

A casa quieta - Rodrigo Guedes de Carvalho

Há autores aos quais acabamos sempre por regressar. Depois de ler O Pianista de Hotel e Jogos de Raiva, fiquei com vontade de conhecer o Rodrigo Guedes de Carvalho dos primeiros romances. Foi essa curiosidade que me levou até A Casa Quieta. Não procurava necessariamente um livro melhor ou pior; queria perceber de onde vinha uma voz literária que já conhecia e de que tanto tinha gostado.

Essa escolha revelou-se particularmente interessante porque A Casa Quieta permite regressar às origens literárias de Rodrigo Guedes de Carvalho. Já se entrevê aqui uma voz muito própria, embora ainda seja possível reconhecer de forma mais evidente as influências que a moldaram. Há uma influência que dificilmente passa despercebida: António Lobo Antunes. Não me parece justo reduzir Rodrigo Guedes de Carvalho a essa comparação, até porque a sua escrita acabaria por seguir um caminho muito pessoal, mas é impossível não reconhecer, neste romance, ecos do fluxo de consciência, da fragmentação narrativa e da intensidade emocional que caracterizam a obra de Lobo Antunes.

A Casa Quieta é um romance sobre uma família profundamente disfuncional, marcada pela doença, pela guerra e pelas ausências que atravessam gerações. Salvador ocupa o centro da narrativa, mas aquilo que verdadeiramente interessa ao autor não é contar uma história linear. É explorar a memória, as feridas familiares e a forma como o passado continua a moldar o presente, mesmo quando parece já distante.

Um dos aspetos de que mais gostei foi a estrutura dos primeiros capítulos, construídos em cronologia inversa. À medida que recuamos no tempo, não sentimos que estamos apenas a descobrir acontecimentos; temos antes a sensação de que vamos desmontando uma família, retirando camada após camada até percebermos como chegou ao lugar onde a encontramos. A fragmentação narrativa pode ser exigente para alguns leitores, mas é precisamente ela que confere ao romance grande parte da sua força emocional.

Mas é sobretudo na escrita que o romance revela a sua maior força. Rodrigo Guedes de Carvalho escreve de forma intensa, por vezes quase poética, sem nunca perder a capacidade de criar imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. Há frases que parecem suspender a narrativa apenas para fixar uma emoção. Uma delas ficou-me particularmente na memória:

"Não te procurei porque procurar-te me deixaria a exata dimensão da tua ausência…"

É uma frase que, de certa forma, resume o espírito do romance. Em A Casa Quieta, as ausências pesam tanto quanto as presenças. O silêncio diz tanto como as palavras. E aquilo que não é dito acaba frequentemente por ser o que mais nos marca.

Comparado com os romances mais recentes de Rodrigo Guedes de Carvalho, este talvez revele de forma mais evidente as influências literárias que o moldaram. Ainda assim, nunca tive a sensação de estar perante um exercício de imitação. Pelo contrário. Mesmo quando a sombra de António Lobo Antunes se faz sentir, já é possível reconhecer uma voz própria, sensível às fragilidades humanas e particularmente eficaz a transformar emoções em literatura.

Em suma, A Casa Quieta não é um romance para quem procura uma narrativa rápida ou uma sucessão de acontecimentos. Exige disponibilidade, atenção e alguma entrega, sobretudo a aceitação de que nem todas as respostas serão dadas de forma linear. Mas recompensa o leitor com uma escrita intensa e uma exploração profundamente humana da memória, da perda e das relações familiares. Gostei muito da leitura, o que, sendo já admirador da escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho, talvez não constitua uma surpresa. É um daqueles livros que não se lê apenas pela história, mas pela forma como nos faz atravessá-la.

Curiosamente, escolhi este livro para me acompanhar na praia. Tinha feito o mesmo com O Pianista de Hotel e Jogos de Raiva e a experiência tinha corrido muito bem. Desta vez, porém, percebi rapidamente que A Casa Quieta pedia outro cenário. É um romance que exige silêncio, tempo e concentração. A praia pode ser um excelente lugar para muitas leituras; esta, para mim, não foi uma delas. Há livros que nos acompanham para qualquer lado. A Casa Quieta pede-nos apenas que encontremos primeiro um lugar suficientemente tranquilo para o ouvir.

 
Ref. ISBN: 978-972-20-3700-6
Editora: Publicações Dom Quixote
Págs. 263

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