segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Jenin ao Amanhecer - Susan Abulhawa

Jenin ao Amanhecer, de Susan Abulhawa, chamou-me a atenção logo que chegou às livrarias. Desde o lançamento que fiquei com curiosidade de o ler, talvez porque procurava uma leitura daquele género que tanto me marcou em Khaled Hosseini, de quem li O Menino de Cabul e Mil Sóis Resplandecentes, e em Naguib Mahfouz, de quem li O Cairo Novo. Procurava uma história capaz de me levar para outra realidade, para outra cultura, mas sobretudo uma narrativa onde a história se cruza com a vida das pessoas que a atravessam.

Acertei em cheio. Encontrei tudo isso em Jenin ao Amanhecer. E encontrei, acima de tudo, uma escrita envolvente, capaz de nos prender sem esforço e de nos emocionar de uma forma particularmente poderosa.

O romance acompanha a família Abulheja ao longo de várias décadas, desde a expulsão da sua aldeia palestiniana de Ein Hod e a chegada ao campo de refugiados de Jenin. No centro da narrativa está Amal, que cresce entre a memória de uma terra perdida, as marcas da violência e a esperança de um dia poder regressar. Através dela, a autora transforma uma história coletiva numa história profundamente pessoal.

E talvez seja precisamente essa uma das maiores forças do livro: não nos fala apenas de um conflito, fala-nos das pessoas que têm de aprender a viver dentro dele. Daqueles que perdem a casa, dos que perdem familiares, dos que crescem num lugar que não escolheram e dos que continuam a carregar uma memória que lhes foi transmitida antes mesmo de poderem compreendê-la.

Susan Abulhawa escreve sobre tudo isto sem nunca deixar que a dimensão histórica se sobreponha completamente às personagens. Há dor, muita dor, mas há também amor, amizade, esperança e uma enorme vontade de sobreviver. A autora consegue, sobretudo, dar-nos uma dimensão humana de uma realidade que muitas vezes conhecemos apenas através de números, notícias e imagens.

Há passagens de uma dureza difícil de esquecer. Esta ficou-me particularmente na memória:

“Para as gerações nascidas nos campos de concentração, a dor encontrava repouso num leito de necrofilia. A morte passou a assemelhar-se à vida, a vida à morte, e houve uma altura na sua juventude em que Amal aspirou ao martírio.”

É uma frase brutal, mas também reveladora da forma como Abulhawa escreve, sem procurar suavizar a dor nem afastar o leitor dela. Obriga-nos a olhar para aquilo que significa crescer num ambiente em que a violência deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte da própria existência.

Mas Jenin ao Amanhecer não é apenas um livro sobre perda. É também um livro sobre pertença. Sobre aquilo que significa ter uma terra, uma memória e uma história que continuam a fazer parte de nós, mesmo quando já não podemos regressar a elas.

É nesse contexto que surge uma das passagens de que mais gostei, quando se fala de Jerusalém:

“Ela possui-me, independentemente de quem a conquiste, porque o seu solo é o guardião das minhas raízes, dos ossos dos meus antepassados.”

Talvez seja difícil encontrar melhor forma de explicar a relação entre uma pessoa e o lugar a que chama casa. Não se trata apenas de possuir uma terra, mas de sentir que também somos feitos dela, da sua história, dos seus mortos, das memórias que nos precederam.

Ao longo da leitura, dei por mim a pensar várias vezes em como a literatura consegue fazer aquilo que a informação raramente consegue: aproximar-nos de realidades que nos são distantes. Podemos conhecer datas, acontecimentos e nomes, mas uma história como esta permite-nos perceber, ainda que através da ficção, o que esses acontecimentos significam quando atravessam uma vida, uma família e várias gerações.

Gostei imenso de Jenin ao Amanhecer. Gostei da escrita, da forma envolvente como Susan Abulhawa constrói a narrativa e, sobretudo, da capacidade que demonstra para nos emocionar sem deixar que a emoção retire força à história que quer contar. É um livro duro, por vezes doloroso, mas também profundamente humano.

Em suma, Jenin ao Amanhecer é daqueles livros que não terminam verdadeiramente quando fechamos a última página. Ficam as personagens, ficam as perdas, ficam as perguntas e, sobretudo, fica a sensação de termos conhecido um pouco melhor uma realidade que tantas vezes nos chega apenas através das notícias.

É uma leitura que dói, mas que vale a pena fazer. Porque há histórias que não nos deixam indiferentes e esta é, sem dúvida, uma delas.


Págs. 392
Ref. ISBN: 978-989-58-9418-5

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