Há momentos em que sentimos necessidade de regressar aos clássicos. Não necessariamente porque nos faltam livros por ler, mas porque há escritores aos quais sabemos que vale a pena voltar. Depois de já ter lido Crime e Castigo e O Jogador, chegou a vez de regressar a Dostoiévski, um porto seguro, através de Noites Brancas.
E que boa escolha.
Noites Brancas é um daqueles livros que se lê depressa, mas que fica connosco muito depois de o terminarmos. É, de certa forma, um shot de leitura de qualidade: curto, intenso e capaz de nos oferecer, em poucas páginas, uma experiência literária que muitos romances muito mais longos não conseguem proporcionar.
A história é simples. Um homem solitário, habituado a viver mais no mundo dos seus pensamentos e dos seus sonhos do que na realidade, conhece Nástienka durante uma das suas caminhadas noturnas. Ao longo de quatro noites, os dois aproximam-se, partilham histórias, expectativas e fragilidades, e criam uma intimidade inesperada. Mas aquilo que começa por parecer uma história de encontro rapidamente se transforma numa história sobre a solidão, a paixão e o abandono.
É precisamente nessa simplicidade que Dostoiévski revela a sua força. Não precisa de uma trama complexa para explorar aquilo que realmente lhe interessa: as pessoas, os seus desejos, as suas ilusões e, sobretudo, a distância entre aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos permite viver.
O narrador é particularmente interessante. É um homem, de quem acabamos por nunca saber o nome, que parece ter construído uma vida inteira dentro da própria imaginação. Sonha, observa, idealiza. Talvez por isso o encontro com Nástienka adquira uma importância tão grande: pela primeira vez, aquilo que antes existia apenas na sua imaginação parece ganhar forma diante dos seus olhos.
E é impossível não reconhecer a beleza da escrita. Logo nas primeiras páginas encontramos uma passagem que me ficou na memória:
“O céu estava tão estrelado, tão luminoso, que, ao olhá-lo, não podíamos deixar de nos perguntar se seria possível que vivessem pessoas mal-humoradas e caprichosas debaixo dele.”
Há qualquer coisa de profundamente belo nesta frase. É também muito característico de Dostoiévski: a capacidade de partir de uma imagem aparentemente simples para revelar o estado de espírito de quem a observa.
Apesar de ser uma história de amor, Noites Brancas é, para mim, sobretudo um livro sobre a solidão. Sobre a necessidade que temos de ser vistos, ouvidos e, ainda que por breves instantes, compreendidos por alguém. É também sobre a facilidade com que podemos confundir aquilo que desejamos com aquilo que realmente existe. Tudo temas perfeitamente atuais.
Talvez seja por isso que, apesar da sua dimensão reduzida, o livro consiga deixar uma impressão tão forte. Dostoiévski não precisa de muitas páginas para criar personagens que parecem carregar uma vida inteira dentro delas.
Gostei muito desta leitura. É um livro delicado, melancólico e profundamente humano. Um daqueles clássicos que nos recordam que a boa literatura não precisa de ser extensa para ser grande.
Em suma, Noites Brancas é uma pequena história sobre grandes sentimentos: a solidão de quem sonha, a esperança de quem se apaixona e a dor inevitável de quem percebe que nem sempre o amor é suficiente para impedir o abandono.
Um verdadeiro shot de leitura de qualidade: breve, intenso e com um sabor que permanece muito depois da última página.

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