Quando decidimos ler Haruki
Murakami há desde logo uma garantia. A certeza de que acabámos de adquirir um
bilhete para uma viagem inesquecível que não nos deixará indiferente.
Publicado em Portugal em três
volumes, este primeiro livro apresenta muitas das características que nos
permitem reconhecer que estamos num mundo de Murakami: personagens solitárias,
uma realidade que começa subtilmente a deslocar-se, referências musicais
constantes e uma fronteira cada vez mais difusa entre o quotidiano e o
extraordinário. Neste livro, Murakami não tem pressa. Em vez de lançar o leitor
diretamente na ação, prefere construir uma atmosfera, acumular pequenos desvios
à realidade e instalar uma inquietação subtil que cresce página após página.
A narrativa desenvolve-se em duas
frentes. Por um lado, acompanhamos Aomame, uma instrutora de fitness com uma
vida aparentemente disciplinada, mas atravessada por uma inquietação difícil de
nomear. Por outro, seguimos Tengo, professor de matemática e aspirante a
escritor, cuja vida sofre uma alteração inesperada quando Komatsu, editor
experiente e pouco ortodoxo, lhe propõe um desafio peculiar: reescrever A
Crisálida do Ar, um manuscrito produzido por uma misteriosa jovem de
dezassete anos chamada Fuka-Eri para posterior submissão a um prémio literário.
Este não é um romance sobre
livros, mas um dos aspetos mais interessantes que tem para oferecer é uma
viagem aos bastidores do mundo editorial. Murakami explora questões
relacionadas com autoria, criação literária, edição e legitimidade artística,
convidando o leitor a refletir sobre o que faz verdadeiramente um escritor.
À medida que a narrativa avança,
começam a surgir pequenas fissuras na realidade. Aomame apercebe-se de que
determinados acontecimentos parecem não coincidir com as suas memórias. Existem
detalhes que não encaixam. Factos que deveriam ser conhecidos assumem contornos
diferentes. O mundo continua aparentemente igual, mas algo mudou.
Sem encontrar melhor explicação,
Aomame atribui um novo nome a esta realidade alternativa: 1Q84, onde o
“Q” (homófono de "kyū", o número 9 em japonês) introduz a
dúvida: não é já o mesmo ano, nem o mesmo mundo. A referência a 1984, de
George Orwell, é evidente, mas Murakami utiliza-a menos como homenagem direta e
mais como ponto de partida para uma reflexão sobre a natureza da realidade, da
memória e da perceção.
Tal como sucede noutras obras do
autor, o extraordinário não irrompe de forma espetacular. Insinua-se.
Instala-se lentamente. O leitor aceita uma pequena estranheza, depois outra, e
outra ainda, até se encontrar num lugar onde deixou de saber exatamente quais
são as regras do mundo que habita.
A música desempenha também um
papel importante neste processo. A Sinfonietta de Leoš Janáček surge
repetidamente ao longo da narrativa, funcionando quase como uma porta de
entrada para este universo paralelo e contribuindo para a construção de uma
atmosfera simultaneamente bela e inquietante.
Se há algo que distingue este
primeiro volume é precisamente a sua capacidade de gerar perguntas sem oferecer
respostas imediatas. Quem é realmente Fuka-Eri? Que significado tem A
Crisálida do Ar? O que aconteceu ao mundo de Aomame? E de que forma as
histórias de Aomame e Tengo se cruzam?
Mais do que responder, e sem
pressa, Murakami prefere preparar o terreno.
Em suma, este primeiro volume de 1Q84
é menos um romance completo e mais o início de uma experiência. Há momentos em
que a narrativa parece avançar devagar demais, mas é difícil não admirar a
forma como Murakami constrói o mistério e a estranheza. Terminada esta primeira
parte, fica sobretudo uma sensação: a de que entrámos num lugar de onde ainda
não compreendemos totalmente as regras, mas do qual queremos continuar a fazer
parte.
Nota adicional: Se 1984 de George Orwell já era um livro à espera de ser lido, após ler este primeiro volume de 1Q84, a urgência aumentou significativamente e será, muito provavelmente, uma das minhas próximas leituras.
Ref. ISBN: 978-972-46-2053-4
Editora: Casa das Letras






