Depois de terminar a primeira parte de 1Q84, estava com muita vontade de regressar a esta história. Felizmente, bastaram poucas páginas para voltar a sentir aquela estranha familiaridade que caracteriza a escrita de Haruki Murakami. O ritmo contido, a atmosfera de mistério e a forma como o quotidiano se cruza com o insólito envolveram-me novamente quase de imediato.
Neste segundo volume, a narrativa continua a construir, capítulo após capítulo, a ligação entre Aomame e Tengo. Embora separados, as suas vidas parecem gravitar inexoravelmente uma em torno da outra, como se fossem atraídas por uma força que ultrapassa o espaço e o tempo. À medida que a história avança, a distância entre os dois parece ganhar um novo significado, enquanto o mundo de 1984 e o de 1Q84 se tornam cada vez mais difíceis de distinguir. Partilham a aparência da realidade, mas pequenas diferenças revelam que algo fundamental se alterou.
Também o papel de Fuka-Eri parece ganhar contornos mais definidos. Ou talvez não. Como é habitual em Murakami, cada revelação abre novas interrogações, e aquilo que julgamos compreender pode rapidamente transformar-se em mais um enigma. A personagem mantém uma aura de mistério que a torna simultaneamente central e difícil de decifrar.
Para além do mistério, este segundo volume aproxima-nos também das fragilidades das personagens e da sua procura de identidade e significado. Quando Tengo afirma «Eu não sou ninguém» e se descreve como «um destroço atirado ao mar, durante a noite, e deixado a flutuar à deriva», encontramos um lado particularmente vulnerável da personagem. Por detrás dos acontecimentos estranhos, há pessoas que procuram compreender quem são e encontrar o seu lugar no mundo.
É precisamente esta combinação entre o inexplicável e os sentimentos humanos que torna a leitura tão envolvente. Murakami não nos entrega todas as respostas, nem parece ter pressa em fazê-lo. Vai construindo a história aos poucos, deixando-nos pistas e dúvidas, enquanto nos leva a questionar aquilo que consideramos real.
Afinal, se sentimos a dor, o medo, o amor ou a perda, fará diferença o mundo em que esses sentimentos acontecem? É uma questão que ganha particular força numa das passagens de Aomame sobre 1Q84:
«Não é uma charanga ruidosa. 1Q84 é o mundo real, onde os cortes fazem correr sangue real, onde a dor é dor verdadeira e o medo é medo real. A lua no céu não é de papel. É uma lua real — são duas luas reais.»
Esta passagem resume bem uma das ideias que mais me interessaram nesta segunda parte: num mundo em que a própria realidade parece estar em causa, a experiência humana não deixa de ser verdadeira. A dor continua a doer, o medo continua a assustar e as escolhas continuam a ter consequências.
Terminei esta segunda parte com ainda mais vontade de continuar a viagem. 1Q84 — Parte 2 não oferece respostas fáceis. Em vez disso, aprofunda o mistério, desenvolve as personagens e reforça a sensação de que caminhamos para um encontro cada vez mais aguardado entre Tengo e Aomame.
Fechei o livro com a mesma vontade com que o comecei: ansioso por regressar a este universo e descobrir para onde Murakami nos conduz a seguir. Porque, em 1Q84, quanto mais pensamos estar perto das respostas, mais percebemos que ainda há muito por descobrir.
Ref. ISBN: 978-972-46-2069-5
Editora: Casa das Letras







