Precisava de um livro leve e de leitura fácil para levar de viagem, já que o que estava a ler era bastante volumoso, pesado e, portanto, pouco prático para o efeito. Andava, além disso, arredado dos thrillers há algum tempo. Quem já leu gostou; quem não leu quer ler A Criada, de Freida McFadden. Cá em casa, era o único que ainda não o tinha lido e, com a adaptação ao cinema a dar-lhe ainda mais visibilidade, parecia claro: o universo estava alinhado para ser este o meu companheiro de viagem.
Há livros que se leem pela história. Outros, pela atmosfera. E depois há aqueles que se impõem pelo desconforto subtil que conseguem instalar desde as primeiras páginas, estruturados em torno do segredo, da suspeita e da inversão final. A sua força não está na originalidade do enredo, mas sim na precisão com que exploram o desconforto do quotidiano — esse espaço doméstico aparentemente seguro que, na literatura contemporânea, se tornou terreno fértil para a ameaça.
Millie, a narradora e protagonista, é uma mulher em fuga: do passado, da pobreza e da exclusão social. Ao aceitar trabalhar como criada numa casa abastada, entra num microcosmo de desigualdade, silêncio e vigilância. Mais do que um novo começo, este emprego funciona como um dispositivo de controlo. A casa, símbolo clássico de estabilidade, transforma-se progressivamente num espaço claustrofóbico, onde a hierarquia social se cruza com jogos psicológicos subtis. Esta tensão entre o visível e o oculto é um dos pontos mais bem conseguidos do romance.
Em A Criada, McFadden constrói um thriller psicológico que abdica do choque fácil para apostar numa tensão progressiva, alimentada pela ambiguidade das personagens e pela inquietação que nasce do quotidiano doméstico, onde o perigo se insinua mais pelo silêncio e pela manipulação do que pelo explícito.
O perigo não é imediato: vai-se infiltrando, normalizando. McFadden compreende bem um princípio essencial do género: o medo é mais eficaz quando se apresenta como dúvida. Quem está a manipular quem? Quem detém realmente o poder? A suspeita constante mantém o leitor num estado de alerta que explica, em grande parte, o sucesso popular da obra.
Um pequeno destaque para a personagem do jardineiro, que, desde que entra em cena, se percebe que não está ali por acaso. A mestria da autora é particularmente visível na forma como vai desvendando a sua função na narrativa de forma doseada, até ao momento certo.
Em suma, A Criada não é um livro que fique. É um livro que passa, mas passa depressa e com intensidade. Não deixa necessariamente marca, mas deixa memória do ritmo, da tensão e da eficácia com que prende o leitor, inquietando-o e surpreendendo-o. Nesse sentido, foi uma escolha particularmente acertada como companheiro de viagem: um livro que não fica, mas que cumpre com precisão aquilo a que se propõe.