domingo, 7 de junho de 2026

1Q84 - Parte 1 - Haruki Murakami

Quando decidimos ler Haruki Murakami há desde logo uma garantia. A certeza de que acabámos de adquirir um bilhete para uma viagem inesquecível que não nos deixará indiferente. Há alguns anos tinha lido Kafka à Beira-Mar e After Dark, duas leituras muito diferentes entre si, mas marcantes o suficiente para deixar reservada uma próxima viagem. Se em Kafka à Beira-Mar Murakami me fascinou pela imaginação e em After Dark pela forma como captou a solidão e o mistério da noite, em 1Q84 impressionou-me sobretudo pela forma como transforma a estranheza numa atmosfera permanente.

Publicado em Portugal em três volumes, este primeiro livro apresenta muitas das características que nos permitem reconhecer que estamos num mundo de Murakami: personagens solitárias, uma realidade que começa subtilmente a deslocar-se, referências musicais constantes e uma fronteira cada vez mais difusa entre o quotidiano e o extraordinário. Neste livro, Murakami não tem pressa. Em vez de lançar o leitor diretamente na ação, prefere construir uma atmosfera, acumular pequenos desvios à realidade e instalar uma inquietação subtil que cresce página após página.

A narrativa desenvolve-se em duas frentes. Por um lado, acompanhamos Aomame, uma instrutora de fitness com uma vida aparentemente disciplinada, mas atravessada por uma inquietação difícil de nomear. Por outro, seguimos Tengo, professor de matemática e aspirante a escritor, cuja vida sofre uma alteração inesperada quando Komatsu, editor experiente e pouco ortodoxo, lhe propõe um desafio peculiar: reescrever A Crisálida do Ar, um manuscrito produzido por uma misteriosa jovem de dezassete anos chamada Fuka-Eri para posterior submissão a um prémio literário.

Este não é um romance sobre livros, mas um dos aspetos mais interessantes que tem para oferecer é uma viagem aos bastidores do mundo editorial. Murakami explora questões relacionadas com autoria, criação literária, edição e legitimidade artística, convidando o leitor a refletir sobre o que faz verdadeiramente um escritor.

À medida que a narrativa avança, começam a surgir pequenas fissuras na realidade. Aomame apercebe-se de que determinados acontecimentos parecem não coincidir com as suas memórias. Existem detalhes que não encaixam. Factos que deveriam ser conhecidos assumem contornos diferentes. O mundo continua aparentemente igual, mas algo mudou.

Sem encontrar melhor explicação, Aomame atribui um novo nome a esta realidade alternativa: 1Q84, onde o “Q” (homófono de "kyū", o número 9 em japonês) introduz a dúvida: não é já o mesmo ano, nem o mesmo mundo. A referência a 1984, de George Orwell, é evidente, mas Murakami utiliza-a menos como homenagem direta e mais como ponto de partida para uma reflexão sobre a natureza da realidade, da memória e da perceção.

Tal como sucede noutras obras do autor, o extraordinário não irrompe de forma espetacular. Insinua-se. Instala-se lentamente. O leitor aceita uma pequena estranheza, depois outra, e outra ainda, até se encontrar num lugar onde deixou de saber exatamente quais são as regras do mundo que habita.

A música desempenha também um papel importante neste processo. A Sinfonietta de Leoš Janáček surge repetidamente ao longo da narrativa, funcionando quase como uma porta de entrada para este universo paralelo e contribuindo para a construção de uma atmosfera simultaneamente bela e inquietante.

Se há algo que distingue este primeiro volume é precisamente a sua capacidade de gerar perguntas sem oferecer respostas imediatas. Quem é realmente Fuka-Eri? Que significado tem A Crisálida do Ar? O que aconteceu ao mundo de Aomame? E de que forma as histórias de Aomame e Tengo se cruzam?

Mais do que responder, e sem pressa, Murakami prefere preparar o terreno.

Em suma, este primeiro volume de 1Q84 é menos um romance completo e mais o início de uma experiência. Há momentos em que a narrativa parece avançar devagar demais, mas é difícil não admirar a forma como Murakami constrói o mistério e a estranheza. Terminada esta primeira parte, fica sobretudo uma sensação: a de que entrámos num lugar de onde ainda não compreendemos totalmente as regras, mas do qual queremos continuar a fazer parte.


Nota adicional: Se 1984 de George Orwell já era um livro à espera de ser lido, após ler este primeiro volume de 1Q84, a urgência aumentou significativamente e será, muito provavelmente, uma das minhas próximas leituras.

 
Págs. 487
Ref. ISBN: 978-972-46-2053-4
Editora: Casa das Letras

domingo, 26 de abril de 2026

Americanah - Chimamanda Ngozi Adichie

Aproveito a Feira do Livro não só para comprar livros, mas também para lhes tocar e senti-los. Já tinha ouvido falar de Chimamanda Ngozi Adichie, mas pouco sabia sobre a sua obra. Na edição do ano passado, ao passar pelo stand da Dom Quixote, o que primeiro me chamou a atenção nas obras de Adichie foi a beleza das capas: as cores, os padrões, a identidade visual muito própria. Gostei mesmo; são belíssimas e, por si só, já dão vontade de trazer um daqueles livros para casa. Após uma breve pesquisa e alguma indecisão, acabei por escolher Americanah. O livro ficou, entretanto, na estante à espera do momento certo. E quando decidi regressar a uma leitura mais densa, mais paciente e mais atenta às personagens, a escolha acabou por surgir naturalmente: um romance amplamente reconhecido e constantemente referido quando se fala de literatura contemporânea africana, identidade e migração.

Há romances que vivem da intriga. Outros, da construção do mundo. Americanah pertence a uma categoria diferente: é um romance que vive da observação. Observação das relações humanas, das diferenças sociais, da forma como a raça, a classe e a linguagem moldam a maneira como cada pessoa ocupa o mundo, obrigando o leitor a pensá-lo através de outros ângulos.

Ifemelu, a protagonista, deixa a Nigéria para estudar nos Estados Unidos, levando consigo não apenas expectativas de futuro, mas também uma ideia relativamente estável de si própria. O choque não vem apenas da adaptação a um novo país, mas da descoberta de uma identidade racial que nunca tinha precisado de pensar da mesma forma no contexto nigeriano. Mas desengane-se quem pensar que este é apenas um romance sobre imigração. É, acima de tudo, um romance sobre identidade e sobre a forma como essa identidade se transforma quando atravessada por geografias, culturas e expectativas alheias. Foi precisamente neste ponto que Adichie mais me surpreendeu: na capacidade de mostrar como certas categorias sociais não são universais, mas construções profundamente dependentes do contexto.

Ao contrário de muitos romances sobre imigração, Americanah não procura simplificar a experiência do deslocamento. Não há idealização da América enquanto promessa absoluta, mas também não existe uma condenação simplista. O romance move-se constantemente na ambiguidade: pertença e desenraizamento, sucesso e solidão, autenticidade e adaptação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a forma como o quotidiano se torna espaço de análise política. Pequenos gestos, conversas aparentemente banais ou situações de desconforto social acabam por revelar estruturas muito maiores. É aí que Americanah ganha profundidade: não apenas no que conta, mas na forma como ensina o leitor a olhar. A questão do cabelo enquanto identidade racial foi talvez o tema que mais me atraiu em toda a narrativa, algo sobre o qual nunca tinha pensado e que me fez todo o sentido. Neste ponto, o famoso blogue de Ifemelu, elemento central no romance, funciona como extensão de uma voz crítica, oferecendo comentários diretos, por vezes irónicos, sobre a experiência racial na América contemporânea.

Em contraste com leituras mais imediatas e orientadas para o efeito, como frequentemente acontece no thriller psicológico contemporâneo (de que foi exemplo a minha recensão anterior, A Criada) este é um livro que resiste à rapidez. Não procura surpreender a cada capítulo, mas antes sedimentar ideias e emoções ao longo do tempo. Essa diferença pode exigir mais do leitor, mas também oferece outro tipo de recompensa: menos imediata, mais duradoura.

Em suma, Americanah não é um livro que se esgote na leitura. É um livro que permanece, não necessariamente pela história em si, mas pelas questões que levanta e pelas perspetivas que abre. Não é um romance perfeito, nem pretende sê-lo. Mas é um daqueles raros livros que, mesmo quando abranda ou se dispersa, nunca deixa de ser relevante.

Págs. 714
Ref. ISBN: 978-972-20-8445-1
Editora: Publicações Dom Quixote

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A Criada - Freida McFadden

Precisava de um livro leve e de leitura fácil para levar de viagem, já que o que estava a ler era bastante volumoso, pesado e, portanto, pouco prático para o efeito. Andava, além disso, arredado dos thrillers há algum tempo. Quem já leu gostou; quem não leu quer ler A Criada, de Freida McFadden. Cá em casa, era o único que ainda não o tinha lido e, com a adaptação ao cinema a dar-lhe ainda mais visibilidade, parecia claro: o universo estava alinhado para ser este o meu companheiro de viagem.

Há livros que se leem pela história. Outros, pela atmosfera. E depois há aqueles que se impõem pelo desconforto subtil que conseguem instalar desde as primeiras páginas, estruturados em torno do segredo, da suspeita e da inversão final. A sua força não está na originalidade do enredo, mas sim na precisão com que exploram o desconforto do quotidiano — esse espaço doméstico aparentemente seguro que, na literatura contemporânea, se tornou terreno fértil para a ameaça.

Millie, a narradora e protagonista, é uma mulher em fuga: do passado, da pobreza e da exclusão social. Ao aceitar trabalhar como criada numa casa abastada, entra num microcosmo de desigualdade, silêncio e vigilância. Mais do que um novo começo, este emprego funciona como um dispositivo de controlo. A casa, símbolo clássico de estabilidade, transforma-se progressivamente num espaço claustrofóbico, onde a hierarquia social se cruza com jogos psicológicos subtis. Esta tensão entre o visível e o oculto é um dos pontos mais bem conseguidos do romance.

Em A Criada, McFadden constrói um thriller psicológico que abdica do choque fácil para apostar numa tensão progressiva, alimentada pela ambiguidade das personagens e pela inquietação que nasce do quotidiano doméstico, onde o perigo se insinua mais pelo silêncio e pela manipulação do que pelo explícito.

O perigo não é imediato: vai-se infiltrando, normalizando. McFadden compreende bem um princípio essencial do género: o medo é mais eficaz quando se apresenta como dúvida. Quem está a manipular quem? Quem detém realmente o poder? A suspeita constante mantém o leitor num estado de alerta que explica, em grande parte, o sucesso popular da obra.

Um pequeno destaque para a personagem do jardineiro, que, desde que entra em cena, se percebe que não está ali por acaso. A mestria da autora é particularmente visível na forma como vai desvendando a sua função na narrativa de forma doseada, até ao momento certo.

Em suma, A Criada não é um livro que fique. É um livro que passa, mas passa depressa e com intensidade. Não deixa necessariamente marca, mas deixa memória do ritmo, da tensão e da eficácia com que prende o leitor, inquietando-o e surpreendendo-o. Nesse sentido, foi uma escolha particularmente acertada como companheiro de viagem:  um livro que não fica, mas que cumpre com precisão aquilo a que se propõe.

Págs. 336
Ref. ISBN: 978-989-722-460-7

sábado, 17 de janeiro de 2026

Resiliência - Um diferente olhar - Vasco Costa

O título desta obra de Vasco Costa pode, à primeira vista, levar-nos a pensar que estamos perante mais um manual de autoajuda, mas não é nada disso. Tenho o prazer de conhecer pessoalmente o Vasco há muitos anos, desde que foi viver para Miranda do Corvo, de conhecer a sua história e a pessoa que é, e foi esse o principal motivo que me levou a ler Resiliência – Um diferente olhar.

Através de um texto composto por fragmentos autobiográficos, o Vasco procura reconfigurar a forma como olhamos para a adversidade. Mais do que uma abordagem técnica ou psicológica do termo, propõe uma reflexão que atravessa a experiência humana, convocando o leitor para um exercício íntimo de reposicionamento: um diferente olhar.

Desde as primeiras páginas, percebe-se que estamos perante uma escrita simples, mas não simplista, direta e despretensiosa, mas nunca superficial, onde se evitam fórmulas rápidas ou discursos motivacionais simplistas. O Vasco convida-nos a conhecer a sua história, apresentando-nos a sua família e os sítios por onde passou. Descreve-nos ainda o que denominou “Um choque”, o dia que mudou irreversivelmente a sua vida. Uma adversidade que, para muitos, poderia ser encarada como um fim, é aqui apresentada como um exemplo de que resistir não é apenas persistir; é também saber parar, reinterpretar e aceitar limites. O autor sublinha que a resiliência não se mede pela ausência de fragilidade, mas pela forma como se integra essa fragilidade na construção de sentido.

Talvez o maior valor deste livro esteja precisamente aí: na recusa de definir a resiliência como destino ou virtude suprema. Ela surge antes como um processo imperfeito, atravessado por dúvidas, perdas e recomeços. Um processo profundamente humano.

O texto flui sem pressa. Não impõe conclusões, nem fecha interpretações. Pelo contrário, deixa espaço para que o leitor se reconheça, discorde ou reflita. A leitura faz-se de dentro para fora, como se cada capítulo funcionasse mais como uma pergunta do que como uma afirmação.

Resiliência – Um Diferente Olhar não promete mudanças instantâneas. Promete algo mais raro: consciência. E, num mundo apressado a ultrapassar dores sem as compreender, esse é um gesto que merece ser lido com atenção.

No essencial, Resiliência – Um Diferente Olhar é um convite à desaceleração e à consciência. Num tempo em que a pressão para “ser forte” se tornou quase normativa, o Vasco lembra-nos que a verdadeira força pode residir na capacidade de reinterpretar a queda, de acolher a incerteza e de continuar, não apesar dela, mas com ela.

Foi um prazer ler este livro. Obrigado, Vasco!

Págs. 139
Depósito Legal: 550130/25
Editora: Fundação ADFP