Há muito tempo que um livro não me suscitava tanta curiosidade. Não descansei enquanto não o comprei e, depois de o ter em casa, não consegui resistir. A ideia de alguém que tem uma vida normal, do mais normal que pode haver, e que, de um momento para o outro, por causa de um sonho, se torna vegetariana convicta, foi suficiente para me atrair. Esta é a história de Yeong-hye.
A Vegetariana é uma narrativa temporalmente tripartida, contada por diferentes narradores, em que o senhor Cheong, marido de Yeong-hye, é o primeiro. A forma como descreve o quão normal era a sua vida, a sua mulher ou o seu casamento é extraordinária. Nunca tinha lido nada de Han Kang, mas foi precisamente esta voz narrativa que me prendeu desde o início. Não resisto a partilhar este excerto em que o senhor Cheong descreve a mulher quando a conheceu e que ilustra bem o tom desta primeira parte:
“Quando se aproximou da mesa a que eu já estava sentado, não consegui deixar de reparar nos sapatos que trazia — os sapatos pretos mais vulgares que se possa imaginar. E aquele andar — nem apressado nem vagaroso, nem firme nem afetado.
No entanto, embora não tivesse nada de muito atraente, nada tinha também de repulsivo e, por isso, não havia motivo para que não nos casássemos. A personalidade passiva dessa mulher em quem eu não conseguia detetar frescura, nem encanto, nem nada de particularmente refinado, servia-me na perfeição.”
O que começa por parecer uma simples decisão alimentar revela-se rapidamente algo muito mais profundo. O vegetarianismo de Yeong-hye não é apresentado como uma escolha ética ou ideológica, mas como uma rutura. Uma recusa. Um gesto que desafia não apenas os hábitos da família, mas também as expectativas sociais e os papéis que lhe foram atribuídos. Numa sociedade sul-coreana patriarcal e ultra-normativa, a sua escolha é recebida como uma verdadeira heresia, um ato de rebeldia incompreensível que desestabiliza a família inteira.
À medida que a narrativa avança, torna-se evidente que este não é um livro sobre vegetarianismo. É um livro sobre controlo, sobre violência (muitas vezes silenciosa) e sobre aquilo que acontece quando alguém decide deixar de corresponder ao que os outros esperam de si. É também neste aspecto que me rendi a Han Kang, a forma como explora estas questões com uma escrita contida, quase fria, o que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores.
Uma das decisões mais interessantes da autora é a de nunca entregar verdadeiramente a voz a Yeong-hye. Conhecemo-la sempre através do olhar dos outros: o olhar do indignado marido, da mente artística (e perturbada) do cunhado, e da dor exausta da irmã. Essa ausência cria um efeito curioso. A protagonista está no centro de tudo e, ao mesmo tempo, permanece inacessível, como um mistério que ninguém consegue compreender completamente.
Há livros que conquistam pela história e outros pelas personagens. A Vegetariana destaca-se sobretudo pela inquietação com que nos deixa. É um daqueles romances que, mesmo quando fechamos o livro, continuam a crescer na nossa cabeça. Algumas cenas são difíceis de esquecer, não pela violência explícita, mas pela estranheza e pelo desconforto que provocam.
Mais do que as questões que o livro parece abordar à superfície, foram aquelas que me suscitou depois da leitura que mais me acompanharam. Entre elas, a forma como a sociedade reage a quem deixa de corresponder às expectativas do que consideramos normal e os limites da intervenção sobre a vontade de alguém. Em vários momentos dei por mim a pensar em temas como a autonomia individual, a institucionalização da diferença e até certas formas de violência psiquiátrica que continuam a suscitar debate. Não porque o romance procure discutir diretamente essas questões, mas porque as convoca de forma subtil e inquietante.
Em suma, A Vegetariana foi uma das leituras mais surpreendentes dos últimos tempos. Entrou na minha lista pela originalidade da premissa, mas ficou pela forma como Han Kang transforma uma decisão aparentemente simples numa reflexão inquietante sobre identidade, liberdade e resistência. Não é um livro confortável. E é precisamente por isso que vale a pena lê-lo. Se procuram algo original, desconcertante e que vos prenda da primeira à última página, A Vegetariana tem de entrar para a vossa lista de leituras obrigatórias.

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