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domingo, 26 de julho de 2026

1984 - George Orwell

Quando terminei A Quinta dos Animais, escrevi que 1984 seria uma leitura para breve. A verdade é que esse "para breve" acabou por demorar mais do que esperava. Foi preciso Murakami e o seu 1Q84 para me lembrar de que a referência era demasiado evidente para continuar a adiar. Se Aomame batiza o seu mundo alternativo como 1Q84, fazia todo o sentido regressar à origem e finalmente ler 1984.

Quem já leu A Quinta dos Animais reconhecerá aqui preocupações semelhantes. Se nessa obra Orwell recorria à alegoria para mostrar como o poder corrompe e como os ideais podem ser traídos, em 1984 abandona o simbolismo e constrói uma distopia onde esses mecanismos são levados ao extremo.

A narrativa acompanha Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, cuja função consiste, ironicamente, em reescrever o passado para que este esteja sempre de acordo com a versão oficial do Partido. Num mundo onde cada gesto é vigiado, cada palavra pode ser um crime e até o pensamento é passível de punição, Winston começa lentamente a questionar a realidade que sempre lhe foi imposta. É desse gesto aparentemente simples, pensar por si próprio, que nasce toda a força do romance.

Há livros que envelhecem. Outros parecem ganhar novas camadas com o passar do tempo. 1984 pertence claramente à segunda categoria. Publicado em 1949, é desconcertante perceber como continua a soar atual. Em vários momentos dei por mim a pensar que poderia perfeitamente ter sido escrito hoje. Não porque Orwell tenha previsto o futuro com precisão, mas porque compreendeu, como poucos, os mecanismos através dos quais o poder procura controlar uma sociedade.

O telecrã é talvez o exemplo mais evidente dessa visão. Um dispositivo que vigia continuamente os cidadãos enquanto lhes transmite propaganda. Pensar que Orwell imaginou algo tão próximo da vigilância permanente numa época em que a televisão ainda dava os primeiros passos é, por si só, extraordinário. Mas o seu verdadeiro golpe de génio vai muito além da tecnologia. Orwell percebeu que um regime autoritário sobrevive menos pela vigilância do que pela capacidade de controlar a verdade, a memória e a linguagem.

É precisamente aí que o romance revela toda a sua força. O mundo de 1984 assenta numa sucessão de contradições cuidadosamente organizadas. O Ministério da Verdade ocupa-se da propaganda, da reescrita da História e da manipulação da informação; o Ministério da Paz trata da guerra; o Ministério do Amor assegura a repressão; e o Ministério da Riqueza gere a escassez económica. Esta inversão não é um simples exercício de ironia: mostra como o poder consegue moldar a realidade através das palavras. A novilíngua não cria apenas novos termos; elimina conceitos e limita aquilo que as pessoas conseguem pensar.

É neste contexto que surge um dos conceitos mais fascinantes do romance: o duplopensar.

"O duplopensar é a pedra de toque do Socing, uma vez que a atitude fundamental do Partido consiste em recorrer à fraude consciente, mantendo ao mesmo tempo a firmeza de propósitos que acompanha a honestidade absoluta."

Poucos conceitos literários explicam tão bem o funcionamento de um regime totalitário. O duplopensar exige que o indivíduo aceite simultaneamente duas ideias contraditórias sem reconhecer a contradição. É um mecanismo profundamente inquietante porque continua a encontrar ecos em muitos discursos políticos, mediáticos e sociais da atualidade.

Ao longo da leitura, foi precisamente isso que mais me impressionou: a sensação constante de que 1984 não pertence apenas ao século XX. As tecnologias mudaram. Os regimes mudaram. Mas a manipulação da linguagem, a distorção da verdade e a tentativa de controlar a forma como pensamos continuam surpreendentemente presentes. Mais do que inquietar-me com o futuro, 1984 levou-me a olhar de forma diferente para o presente. Dei por mim a reparar na facilidade com que, também hoje, certas palavras mudam de significado consoante quem as utiliza. Foi talvez esse o maior mérito do romance: não o de prever o mundo em que vivemos, mas o de nos ensinar a observá-lo com maior sentido crítico.

Comecei esta leitura porque Murakami me levou até Orwell. Terminei-a com a convicção de que 1984 não é apenas um clássico da literatura distópica. É um livro que continua a desafiar-nos a pensar sobre a verdade, a linguagem e o poder. Talvez seja essa a razão pela qual, mais de setenta anos depois da sua publicação, continua a parecer assustadoramente contemporâneo.

Págs. 336
Ref. ISBN: 978-972-608-189-0
Editora: Antígona

quarta-feira, 31 de julho de 2024

A Quinta dos Animais - George Orwell

Publicado em 1945, A Quinta dos Animais é uma fábula política que utiliza os animais de uma quinta para satirizar os mecanismos do poder e a corrupção dos ideais revolucionários. A história começa com a revolta dos animais contra o dono humano, movida pelo desejo de liberdade, igualdade e justiça. No entanto, à medida que os porcos assumem a liderança, a utopia inicial degrada-se e o novo regime acaba por reproduzir, e até superar, as injustiças que prometera eliminar.

O que, à primeira vista, parece apenas uma fábula revela-se rapidamente uma sátira política de enorme alcance. Orwell combina uma narrativa simples com um simbolismo poderoso, tornando o romance simultaneamente acessível e profundamente crítico. Embora a obra remeta claramente para a Revolução Russa e para a ascensão do estalinismo, seria redutor lê-la apenas nessa perspetiva. A sua verdadeira força está na capacidade de mostrar como qualquer poder, quando deixa de ser escrutinado, tende a preservar-se a si próprio, mesmo à custa dos princípios que lhe deram origem.

É também impressionante a forma como Orwell evidencia que o controlo não se exerce apenas pela força, mas igualmente pela manipulação da memória e da linguagem. À medida que as regras vão sendo discretamente alteradas e o passado reescrito para servir os interesses dos líderes, torna-se evidente que quem controla a narrativa acaba, inevitavelmente, por controlar a realidade. Uma ideia que o autor desenvolveria de forma ainda mais profunda alguns anos depois em 1984.

A ironia final, com os porcos já indistinguíveis dos homens, resume de forma brilhante a mensagem central do romance: quando a memória coletiva se perde e os slogans substituem o pensamento crítico, os ideais que motivaram uma revolução podem ser completamente subvertidos. Mais do que uma crítica a um momento histórico específico, A Quinta dos Animais permanece um alerta intemporal sobre a fragilidade da liberdade e sobre a facilidade com que o poder se perpetua quando deixa de ser questionado.

Gostei imenso desta obra. Depois de a ler, foram inúmeras as analogias que comecei a fazer com a realidade. A Quinta dos Animais é muito mais do que um livro: é um extraordinário exercício de reflexão. Continua a parecer-me uma leitura indispensável, sobretudo para todos aqueles que exercem cargos de liderança, políticos ou não. Talvez porque Orwell nos recorda uma verdade simples, mas desconfortável: o problema raramente está apenas em quem conquista o poder; está também na facilidade com que esquecemos por que razão lho entregámos.

Para breve, 1984 do mesmo autor.

Págs. 160
Ref. ISBN: 978-972-608-197-5 
Editora: Antígona