domingo, 26 de abril de 2026

Americanah - Chimamanda Ngozi Adichie

Aproveito a Feira do Livro não só para comprar livros, mas também para lhes tocar e senti-los. Já tinha ouvido falar de Chimamanda Ngozi Adichie, mas pouco sabia sobre a sua obra. Na edição do ano passado, ao passar pelo stand da Dom Quixote, o que primeiro me chamou a atenção nas obras de Adichie foi a beleza das capas: as cores, os padrões, a identidade visual muito própria. Gostei mesmo; são belíssimas e, por si só, já dão vontade de trazer um daqueles livros para casa. Após uma breve pesquisa e alguma indecisão, acabei por escolher Americanah. O livro ficou, entretanto, na estante à espera do momento certo. E quando decidi regressar a uma leitura mais densa, mais paciente e mais atenta às personagens, a escolha acabou por surgir naturalmente: um romance amplamente reconhecido e constantemente referido quando se fala de literatura contemporânea africana, identidade e migração.

Há romances que vivem da intriga. Outros, da construção do mundo. Americanah pertence a uma categoria diferente: é um romance que vive da observação. Observação das relações humanas, das diferenças sociais, da forma como a raça, a classe e a linguagem moldam a maneira como cada pessoa ocupa o mundo, obrigando o leitor a pensá-lo através de outros ângulos.

Ifemelu, a protagonista, deixa a Nigéria para estudar nos Estados Unidos, levando consigo não apenas expectativas de futuro, mas também uma ideia relativamente estável de si própria. O choque não vem apenas da adaptação a um novo país, mas da descoberta de uma identidade racial que nunca tinha precisado de pensar da mesma forma no contexto nigeriano. Mas desengane-se quem pensar que este é apenas um romance sobre imigração. É, acima de tudo, um romance sobre identidade e sobre a forma como essa identidade se transforma quando atravessada por geografias, culturas e expectativas alheias. Foi precisamente neste ponto que Adichie mais me surpreendeu: na capacidade de mostrar como certas categorias sociais não são universais, mas construções profundamente dependentes do contexto.

Ao contrário de muitos romances sobre imigração, Americanah não procura simplificar a experiência do deslocamento. Não há idealização da América enquanto promessa absoluta, mas também não existe uma condenação simplista. O romance move-se constantemente na ambiguidade: pertença e desenraizamento, sucesso e solidão, autenticidade e adaptação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a forma como o quotidiano se torna espaço de análise política. Pequenos gestos, conversas aparentemente banais ou situações de desconforto social acabam por revelar estruturas muito maiores. É aí que Americanah ganha profundidade: não apenas no que conta, mas na forma como ensina o leitor a olhar. A questão do cabelo enquanto identidade racial foi talvez o tema que mais me atraiu em toda a narrativa, algo sobre o qual nunca tinha pensado e que me fez todo o sentido. Neste ponto, o famoso blogue de Ifemelu, elemento central no romance, funciona como extensão de uma voz crítica, oferecendo comentários diretos, por vezes irónicos, sobre a experiência racial na América contemporânea.

Em contraste com leituras mais imediatas e orientadas para o efeito, como frequentemente acontece no thriller psicológico contemporâneo (de que foi exemplo a minha recensão anterior, A Criada) este é um livro que resiste à rapidez. Não procura surpreender a cada capítulo, mas antes sedimentar ideias e emoções ao longo do tempo. Essa diferença pode exigir mais do leitor, mas também oferece outro tipo de recompensa: menos imediata, mais duradoura.

Em suma, Americanah não é um livro que se esgote na leitura. É um livro que permanece, não necessariamente pela história em si, mas pelas questões que levanta e pelas perspetivas que abre. Não é um romance perfeito, nem pretende sê-lo. Mas é um daqueles raros livros que, mesmo quando abranda ou se dispersa, nunca deixa de ser relevante.

Págs. 714
Ref. ISBN: 978-972-20-8445-1
Editora: Publicações Dom Quixote

Sem comentários: