domingo, 9 de janeiro de 2011

Sôbolos rios que vão - António Lobo Antunes

Tinha vontade de voltar a ler Lobo Antunes. Tinha vontade de ler frases do tipo "... gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente...". Tinha vontade de me tornar a perder nos vários cenários que as suas obras proporcionam.

António Lobo Antunes não é um autor consensual. Mas afinal, é mesmo assim com todos os artistas, não é? Eu sou seu admirador de forma incondicional. Conseguiria ouvi-lo falar horas sem parar. 
Poder-se-á dizer que os seus livros não são de leitura fácil, mas na minha opinião isso deve-se unicamente à riqueza do conteúdo da sua escrita. Arriscaria dizer que a par de Agustina Bessa-Luís, estamos no topo da pirâmide dos escritores portugueses da actualidade.

Sôbolos rios que vão é a sua última obra cujo o lançamento ocorreu a 29 de Outubro de 2010 na Estação Elevatória dos Barbadinhos, pertença do Museu da Água da EPAL. Tive o prazer de assistir ao vivo a este lançamento e devo dizer que a vontade de ler este livro surgiu logo aí. O título, proveniente de um poema de Camões, é soberbo, o que aliás parece estar a tornar-se um hábito nos livros do autor. Sem dúvida uma forma superior de baptizar esta obra.

Estamos perante um texto muito autobiográfico. Há alguns anos atrás, Lobo Antunes esteve hospitalizado devido ao aparecimento de um cancro. É essa experiência que, do seu ponto de vista privilegiado de doente, se propõe a apresentar ao longo dos dias em que esteve hospitalizado.

O recurso a memórias antigas para passar o tempo, para esquecer o presente, para justificar as dores ou os sentimentos, está presente do início ao fim. Tudo acontece para se abstrair do que está em seu redor como se fossem espasmos que findam quando a dor regressa. A facilidade com que muda de interlocutores, de cenários ou de espaços temporais, permite ao leitor divagar no percurso da obra (dos rios?).

As metáforas utilizadas e a riqueza dos seus pensamentos são apaixonantes. Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita. 
Comparar a sensação de se ter um cancro nos intestinos com a sensação de ter um ouriço de  castanheiro dentro de nós é bem revelador do poder da sua escrita. O doente que não é doente, é o senhor Antunes, não, é o Antoninho! O avô que é a única pessoa que se preocupa com a dor provocada pelo ouriço. Mas como, se afinal o avô morreu há 40 anos? O pai que apenas procura a bola de ténis que se escondeu atrás dos arbustos como o ouriço que esconde em si. O médico, ou antes o pingo no sapato, quando afinal os rios continuam a caminhar... E nós, sôbolos rios que vão.

Págs. 199
Ref. ISBN: 978-972-20-4144-7
Editora: Publicações Dom Quixote

9 comentários:

Paula disse...

Parabéns pelo novo look do blogue, está magnífico :)
Tenho este livrinho em casa por ler :P (mais um)daqui a dias pego nele.
Um abraço

Marco Caetano disse...

Olá Paula!

Fico satisfeito que tanha gostado deste novo look.

Quanto ao livro, acho que dá para perceber pela recensão que gostei imenso e claro está que aconselho vivamente.

Continuação de boas letras...

Tiago M. Franco disse...

"Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita."
Concordo plenamente com está afirmação. Este livro é para se ler com bastante atenção. Foi o meu primeiro livro do autor, mas certamente que não será o ultimo.

Marco Caetano disse...

Olá Tiago,

Deixe que lhe diga que gostei bastante do seu comentário. Gosto muito de conhecer outras opiniões sobre os livros que leio, mas mais do que isso aprecio que percebam o que quero transmitir com a minha opinião. No seu caso, acho que consegui! Fico feliz por isso.

Continuação de boas letras...

Patrícia disse...

Olá Marco
António Lobo Antunes é "uma pedra no meu sapato". De facto (ainda) não consegui ler nenhum livro dele (só tentei ler o Arquipélago da insónia) mas não é por isso que irei desistir.
Acho é que tenho que começar por outro, mais fácil, de escrita mais "tradicional".
Boas leituras

Marco Caetano disse...

Patrícia,

Se me permite uma sugestão, leia "Memória de Elefante", foi o primeiro. Uma escrita bem diferente da actual. Uma obra recomendada para entrar neste mundo!

Continuação de boas letras...

SEVE disse...

Declaro-me ABSOLUTAMENTE INAPTO para ler este ALA. Tentei mais uma vez ler este "Sôbolos rios que vão" mas à página 20 "deslarguei" não aguentava mais, é incrível como não consigo decifrar uma frase que seja e certamente é defeito meu depois de ler tanto elogio a ALA...Curiosamente lembro-me de, há cerca de vinte anos, ter lido dois dos primeiros livros dele e ter gostado muito "CONHECIMENTO DO INFERNO" e "MEMÓRIA DE ELEFANTE", daí pá frente impossível, é um martírio...e para me martirizar já me basta o Nicholas Sparks

Marco Caetano disse...

SEVE,

Apesar de eu gostar imenso de ALA, consigo compreender a sua opinião.
Acho que não é fácil entrar nesta escrita. Porém, uma vez que o conseguimos, é maravilhoso.
Vale a pena tornar a tentar...

SEVE disse...

Marco- (mal "acomparado") já dizia Vergílio Ferreira: uma obra de arte não é para "entender", mas para "compreender", porque para entender há os anúncios do Correio da Manhã e o boletim meteorológico