A máquina de fazer espanhóis. Sabem o que é?
Comprei este livro sem nunca ler a sinopse, não fazendo por isso a mínima ideia de qual seria o enredo. Habituei-me, de algum tempo a esta parte a relacionar o nome de Valter Hugo Mãe com a nova vaga de escritores portugueses com qualidade.
Será ainda uma promessa?
Lamento não saber responder. A leitura desta obra contribuiu certamente para ajudar a formular uma opinião, mas para responder a esta questão, revela-se insuficiente. Está fácil de ver que esta foi a minha primeira incursão por uma obra do autor, mas por certo não será a última.
Valter Hugo Mãe dedica esta "máquina" a seu pai, o qual não teve oportunidade de viver a terceira idade. É precisamente nesta fase da vida que se encontra o narrador do livro, Sr. António Silva. Curioso este personagem! Após a morte de sua esposa, Laura, é depositado num lar. É aqui que nos conta o que foi e o que é a sua vida. Entre as várias pessoas que conhece, destaco o Esteves, um homem cheio de metafisica, uma personagem que saiu do poema da Tabacaria, de Fernando Pessoa.
Com o senhor Silva conhecemos um ponto de vista sobre a vida nos anos do Salazarismo, mas aprendemos também que nunca é tarde para nos surpreendermos e até para fazer amigos, mesmo que durante toda a vida isso parecesse uma utopia. Curiosa é também a relação que mantém com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, a Mariazinha, conforme gosta de lhe chamar.
Não sou admirador da forma como o autor escreve, mas sou admirador do que escreve. Passo a explicar: Escrever em texto corrido, sem parágrafos, sem discurso directo explicito (se assim lhe posso chamar), é de facto uma forma de escrita que não me atrai. Não quero parecer demasiado conservador, mas sinceramente não percebo o porquê desta moda. Reparei que há um capitulo em que o tipo de escrita nada tem a ver com o resto. Não percebi o porquê, mas confesso que até gostava! Quando se fala do conteúdo, aí a conversa já é outra. Esta máquina é uma história descontraída, divertida e que dá vontade de ler. Dei por mim algumas vezes a soltar gargalhadas durante a leitura do livro.
Recomendo esta leitura. Para que se perceba melhor esta "boa onda" que o livro transmite, transcrevo aqui um pequeno excerto de texto que me agradou particularmente.
"e a lei, essa coisa sensível que gosta de nós e se preocupa com o estarmos felizes e confortáveis, comove-me. ... haviam todas as coisas de ser de comer. tudo. carros e casas haviam de ser de comer. e no momento em que estivéssemos para morrer e deixar para impostos e roubalheiras assim, comíamos tudo e depositávamos no testamento o monte de merda que dali resultasse ... que se quisessem vê-lo transformado novamente em casas e carros, teriam de usar para estrumar os campos e depois plantar e regar e tomar conta e depois colher até venderem laranjas das boas como antigamente se fazia no país inteiro."
Sem dúvida, um pensamento bastante curioso!
Págs.287
Ref. ISBN: 978-989-672-016-2
Editora: Alfaguara